Cinema e Séries

Blade Runner 2049 | a sequência mais aguardada do ano

Depois de três décadas e meia de especulações, a estreia mundial da semana é nada menos do que Blade Runner 2049, pelas mãos do diretor Denis Villeneuve, de A Chegada (Riddley Scott, diretor do primeiro, assinou como produtor executivo) e estrelado por Ryan Golsing (La La Land), Ana de Armas (Bata Antes de Entrar), Jared Leto (Esquadrão Suicida), Robin Wright (Mulher Maravilha) e Harrison Ford (Star Wars).

Dessa vez, o longa se passa no ano de 2049 e os acontecimentos narrados na obra de 1982 são tratados quase como um bloqueio devido a um apagão que durou 10 dias e aniquilou todos os dados cibernéticos dos anos passados. Golsing é Agente K, um replicante moderno, construído com a mais alta bioengenharia para ser imune a falhas emocionais, diferentemente da leva inicial de soldados robôs apresentada no primeiro filme. Seu trabalho é aniquilar os dissidentes do passado e seu ofício se debruça sobre aparentes incongruências que aconteceram no intervalo de tempo entre 2019 e 2049. Isso o leva a uma caçada por pessoas que presenciaram o ocorrido e que poderiam lhe explicar as lacunas de seu problema.

Como manda a atual tradição hollywoodiana, a sequência é totalmente fiel à cartilha do primeiro filme. Naturalmente, os 35 anos de diferença entre ambos fizeram com que toda tecnologia que foi inovadora no primeiro, agora se transforme no único modo de contar e aprofundar a nova história. Nesse sentido, os efeitos especiais estão imersivos ao extremo, de modo que é fácil para o público se adaptar àquela ambientação futurista e distópica das cidades contempladas neste filme graças à alta qualidade dos efeitos do longa.

Vale destaque a cena em que o Agente K é convidado a um momento íntimo com sua namorada virtual Joi (Ana de Armas) intrincada no corpo de Doxie, uma mulher de verdade (Krista Kosonen). Essas cenas conseguem mesclar a gesticulação de duas atrizes em um único corpo. A conexão sofre algumas panes e as feições e movimentos de ambas se confundem e se diferem ao mesmo tempo. Tal maestria de efeito seria tudo que o diretor de Ghost (1990) gostaria para compor a cena em que o espírito Sam (Patrick Swayze) se incorpora no corpo de Oda Mae (Whoopi Goldberg) em uma das cenas mais memoráveis do cinema.

A fotografia do longa é um show à parte. Para o espectador mais atento, vai ser fácil se perder no visual de algumas sequências, que ficou sob a responsabilidade de Roger Deakins. A perspectiva mistura cenas de cores frias puxadas ao sombrio com cenários de cores quentes, onde laranja e amarelo predominam e geram a sensação de suor e calor. Some-se a isso o excesso de cenas noturnas regadas a chuva intensa ou uma neve delicada que tem o condão de amenizar os dramas do Agente K. A excelente cenografia e figurino dão o toque final no quesito requinte e genialidade.

O visual cyberpunk (brevemente definido como gênero sci-fi que engloba “alta tecnologia em baixa qualidade de vida”) inerente ao longa se entrelaça com a ambientação estilo noir (moral ambígua, apelo sexual e nudez, cenário neon e noturno em uma sociedade niilista permeada por diversos crimes) são capazes de assemelhar a presente obra em muitos aspectos aos recentes Atômica e Vigilante do Amanhã. O cenário de metrópole multicultural é essencialmente industrial, sujo e visualmente poluído, retratando um planeta decadente que já foi abandonado por uma parte da população em prol de colônias extraplanetárias. Nesse cenário, madeira e vida natural são preciosidades em extinção.

No quesito edição de som, o filme vale a ida em uma sala tecnológica que ofereça uma experiência mais imersiva possível. Some-se a isso a trilha sonora, que fica por conta de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch e faz páreo com a do primeiro longa, composta por Vangelis e elogiada até os dias de hoje como uma das melhores trilhas do cinema.

No quesito atuação, temos um Ryan Golsing contido como manda o perfil do agente cibernético criado para não sentir emoções verdadeiras. Suas memórias são implantadas e a discussão filosófica sobre a humanidade dos replicantes fica mais a cargo de Joi (a cubana Ana de Armas), o holograma adquirido por K para ser sua companheira. Joi quer sentir a vida e transmitir afeto a K, que apelida de Joe por acreditar que ele é especial. Jared Leto encarna Wallace, o novo empresário vilão que não convence muito nem na maldade nem na megalomania. Diferentemente de Luv (Sylvia Hoeks), a agente cibernética que transpira crueldade e frieza e entra em ação no lugar do chefe Wallace.

Harrison Ford personifica o elo entre o primeiro e o segundo filme e se faz em casa na reprise do papel de Deckard, mas sem roubar o protagonismo do Agente K. Ultimamente, o ator vem reconquistando fãs por aceitar reencarnar personagens que marcaram o cinema; só no neste ano, ele volta tanto como Rick Deckard em Blade Runner, como com Han Solo em Star Wars VIII: O Último Jedi (15/12/2017). Para quem está curtindo as retomadas, vale adiantar que o quinto longa de Indiana Jones está agendado para julho de 2020, sob a direção de Steven Spielberg.   

 

No mais, é certo que por possuir uma legião de fãs, nem todos se agradarão do novo Blade Runner 2049, que se mantém tão fiel ao primeiro que chega ao ponto da previsibilidade. Isso pode ser algo positivo para o público calouro, considerando que as extensas 2 horas e 43 minutos são prolongadas mais do que o bom senso mandaria em alguns momentos; entretanto, sua perfeição técnica mantém a plateia atenta durante todo o tempo.

Assista ao trailer:

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