Cinema e Séries

Crítica: A Lei da Noite

Chega aos cinemas nesta quinta-feira, 23/02 o filme A Lei da Noite (Live by Night, EUA, 2017), do diretor Bem Affleck, que também assina o roteiro e participa da coprodução e protagoniza-o. O longa dá continuidade a fase gângster das exibições, uma vez que A Lei da Noite segue a mesma linha bang bang urbano vista em Aliados e Jonh Wick – Um Novo Dia Para Matar. O filme celebra a união esforços entre as produtoras de Affleck (Pearl Street) e Leonardo DiCaprio (Appian Way) na produção, que se baseia em um livro homônimo do escritor Dennis Lehane, publicado em meados de 2012.

O longa é narrado pelo próprio protagonista, Jonathan (Joe) Coughlin, um dos filhos de um capitão de polícia de Boston Thomas Goughlin (Brendam Gleeson), que luta na I Guerra Mundial, em 1917 e volta para sua terra natal com a sensação de que as regras aplicadas para os soldados não eram seguidas por quem as criou, o que gera no veterano o desejo de não mais se submeter hierarquicamente a ninguém e viver de acordo com suas próprias convicções.

Na Boston dos anos 20, Joe dá continuidade à sua vida pós-exército saqueando bancos em sua cidade e chama a atenção dos líderes locais, que veem potencial nele para esquemas maiores. Contudo, Joe resiste, alegando que nunca seria um gângster, e se satisfaz com a qualidade de fora-da-lei. Sua vida sofre uma reviravolta quando se apaixona por Emma Gould (Sienna Miller), a amante do chefão local Albert White (Robert Glenister).

Emma Gould, a dupla amante.

Ao ter noção do romance, o rival de máfia de White decide chantagear Coughlin. Maso Pescatori (Remo Girone) determina que, ou o filho do chefe de polícia local assassina seu inimigo ou seu inimigo será informado do caso entre ele e Gould. A negativa de aceitação do acordo leva Joe Coughlin a uma temporada de contratempos das quais se livra através da intervenção do pai. Anos depois, aceita a proposta e se torna o braço direito nos negócios do mafioso Pescatori.

A vida como contrabandista de run em plena Lei Seca traz para a vida de Coughlin novos ares, ao se mudar para a Flórida com vistas a cuidar dos interesses do patrão. Lá, tece acordos rentáveis em nome do chefe, constrói uma sólida amizade e parceria com o latino Dion Bartolo (Chris Messina) consegue manter a Polícia afastada dos negócios graças ao bom relacionamento com o chefe local Figgs (Chris Cooper), se apaixona pela cubana Graciela Suárez (Zoe Saldana) e trava negócios com seu cunhado, Esteban Suárez (Miguel). Tudo isso seria sinônimo de uma vida financeira e socialmente tranquila se não fosse o caso de os negócios de Joe e seus concorrentes serem completamente escusos da lei.

Joe com o chefe de polícia Figgs. Relação controversa.

O filme, que poderia ser emocionalmente raso devido ao uso extremo de violência para resolver impasses, ganha profundidade ao se debruçar sobre os vários momentos que a passagem do tempo traz ao protagonista. A extensa passagem de vida contada nos 130 minutos do longa aproxima o espectador do protagonista, que mantém comportamentos éticos e humanos, mesmo intrincado na máfia norte-americana.

Em muitos momentos, as decisões tomadas por Joe Coughlin são baseadas na afetividade ou na simpatia que nutre por alguém. Esse comportamento o leva, em alguns momentos, a sofrer prejuízos financeiros, mas não existem sinais de arrependimento no fora da lei, que chega a ser xingado de bandido de termo ao não ousar tomar decisões consideradas apropriadas pelo seu patrão, como investir na prostituição ou não combater a liderança cristã que ameaça o comércio alcoólico através da líder Loretta Figgs (Elle Fanning) a filha do chefe de polícia local, mas não pensa duas vezes ao trucidar a Ku Klux Klan.

Coughlin dialoga com Loretta Figgs para chegarem a um acordo entre suas empreitadas.

A Lei da Noite consegue mostrar que mesmo no interior do crime organizado, onde a lei é o poder de fogo e a influência, onde inimigos se tornam amigos e vice-versa, que a força de vontade de um homem em viver uma vida criminosa, mas com valores, é possível. O protagonista não exita em matar, torturar, extorquir e cobrar dívidas, mas permanece fiel a alguns princípios afetivos. Coughlin consegue ser um homem antiético e cheio de moral ao mesmo tempo.

Joe e Graciela: companheirismo e parceria comercial.

A parte mais doce do mafioso consegue ganhar as telas, que mescla as intermináveis cenas cruas de violência com paisagens dos exuberantes crepúsculos e praias da Flórida. O questionamento que acompanha a plateia após o deslinde da história é a dúvida se um criminoso pode ser um bom homem, que respeita as mulheres e a igreja e é um caucasiano que dribla preconceitos e sofre discriminação por sua companheira ser negra, latina e independente ao mesmo tempo.

A sólida relação entre a cubana e o fora da lei.

Cabe ao espectador a sentença sobre a condenação ou absolvição do Joe Coughlin, o homem amoroso que dilacerou o coração do pai, e o criminoso que consegue tratar com cortesia seus desafetos. Joe, afinal, é um bom homem?

O que é ser um bom homem?

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