Design

Qual o impacto social do designer?

Créditos: FOTOLIA ADOBE

Você já deve ter percebido que o mercado sempre cobra que nós, designers, estejamos sempre nos atualizando e aprendendo novos softwares, novas ferramentas, novos métodos de projetação para que sejamos cada vez mais eficazes. Porém, hoje gostaria de levantar uma questão que muitas vezes é deixada de lado quando estamos no mercado.

Se você leu o título deste artigo e ficou pensando será que não deveria ser o impacto social do Design e não do designer, você está completamente enganado. Hoje vou tratar do impacto de nossas ações. Sim, nossas ações!

Você também pode não ter imaginado que irei falar um pouco sobre  história, mas isso será fundamental para alcançarmos a resposta à pergunta do título deste artigo. Afinal, como alguns dizem: “É preciso conhecer o passado para entender o presente e construir o futuro.”

Como muitos devem saber, o grande marco que protagonizou o surgimento do Design foi a Revolução Industrial que ocorreu em dois momentos, o primeiro no século XVIII na Inglaterra, que possuiu como maior característica a substituição do trabalho humano pelo trabalho mecânico. E o segundo, um século após,  que foi caracterizado principalmente pelo uso de novas fontes de energia para o trabalho mecânico, especialmente o uso de combustíveis fósseis. Segundo Luis Carlos Paschoarelli et al, no livro “O Futuro do Design no Brasil”, o segundo momento foi mais relevante que a primeiro, uma vez que esta proporcionou o surgimento oficial do Design alguns anos mais tarde.

Após 1830, a produção industrial se descentralizou da Inglaterra e foi se expandindo ao redor do mundo, mas é válido ressaltar que cada país possuiu um ritmo diferente baseado em suas próprias condições econômicas, sociais e culturais.

Com isso, as indústrias passaram a crescer cada vez mais e mais e os ateliês e artesãos foram ficando para trás em virtude da acessibilidade financeira dos produtos industrializados. Porém, o preço baixo impactava diretamente na qualidade dos produtos que cada vez caía mais. Se antes os artesãos acompanhavam todo o processo de fabricação no modelo industrial isso não era possível, uma vez que levaria muito tempo para que os produtos fossem produzidos.

Sendo assim, avistando essa oportunidade, surge o movimento Artes e Ofícios, liderado por Willian Morris (1834 – 1896), que colocava a qualidade dos produtos em primeiro lugar, diferentemente da industrialização.

Mesmo as intenções de Morris sendo as melhores possíveis o movimento não obteve êxito, pois os produtos criados por seu movimento tornaram-se cada vez mais caros e inacessíveis.

Porém, os ideais desse movimento não deixaram de existir. Logo em seguida, na cidade de Weimar (Alemanha) eles seriam revividos com a criação da escola de Artes Aplicadas, que possuía como principal intuito a inserção da arte na indústria.

Após ser fechada durante a Primeira Guerra Mundial para que seu prédio fosse utilizado como hospital militar, voltou a ser reaberta no pós-guerra com Walter Gropius (1883 – 1969) como seu Direto. Em seguida, uniu-se juntamente a Escola de Belas-Artes, em Weimar, surgindo assim uma nova instituição, a Das Staatliches Bauhaus, conhecida por muitos apenas por Bauhaus.

Cartão-postal n.o 11 para exposição da Bauhaus em Weimar, Herbert Bayer, verão de 1923. Créditos: casavogue.globo.com

Inaugurada em 1919, a Bauhaus, fundada com uma visão predominantemente socialista visava desenvolver produtos essencialmente funcionais e concisos esteticamente para que as camadas populares tivessem acesso.

A escola passou por três fases: a primeira em Weimar entre 1919 e 1925; a segunda em Dessau entre 1925 e 1932, onde em 1928 Groupius foi afastado por pressão política, vindo a ser substituído por Hannes Meyer; e a terceira em Berlim, de 1932 à 1933, dirigida por Ludwig Mies van der Rohe e fechada por pressões nazistas.

“O que a Bauhaus e a origem do Design tem haver com o impacto social do designer?”

Acredita-se que a Bauhaus possa ser a maior influenciadora do ensino e até mesmo prática do Design nas indústrias até os dias atuais, pois seus docentes e alunos espalharam-se por todo o mundo e foram responsáveis por disseminar seus ideais.

Ainda segundo Paschoarelli et al, é preciso considerar que essa instituição não contribuiu apenas no âmbito estético e metodológico, pois não se pode analisar sua história sem levar em consideração o contexto político e social da época. Uma vez que em todas as suas fases, a Bauhaus esteve aliada a reinvindicações sociais e políticas. O que Schneider (2010), caracterizou como um movimento com engajamento social e político.

Estes ressaltam ainda, que ao se entrar no mérito das implicações sociais e do design, também devemos ter em mente o caminho inverso, pois fatores políticos e econômicos influenciam diretamente a produção do Design. Cabe lembrar o que  Schneider (2010) chamou de “design negativo”, que consiste em sua utilização para finalidades sociais ou humanas nocivas, podendo ser citado como exemplos a produção para indústria de armamentos e instrumentos de tortura, vigilância e opressão.

Ou até mesmo itens aparentemente triviais como cartazes de propaganda, podem ser utilizados para iludir e ludibriar pessoas, como aconteceu na Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

“Nossa última esperança: Hitler”. Cartaz do partido nazista. Créditos: www.annefrank.org

Scheider (2010), afirma que iniciativas de engajamento social como a da Bauhaus foram malsucedidas, pois a racionalidade e a estética adotadas não foram compreendidas como valores culturais, transformando-se, ao invés disso, em produtos que conferiram algum status àqueles que contavam com uma formação que permitisse reconhecer um bom design.

Contudo, Paschoarelli et al, afirmam que a trajetória do Design pode ser entendida como um processo de sobreposição, na qual tudo o que é desenvolvido modifica ou acrescenta novas funcionalidades ao existente.

Ou seja, é preciso que entendamos que tudo que projetamos irá impactar nossa sociedade de alguma maneira, seja de maneira positiva ou negativa.

Por fim, o fato é que irá  impactar de alguma maneira e nós devemos sempre buscar que seja o mais positivo possível. Afinal, o Design vai muito além de gerar soluções práticas e funcionais. Ele pode, e deve gerar um impacto positivo na vida das pessoas.

 

REFERÊNCIAS

PASCHOARELLI, Luis Carlos et al. O futuro do design no Brail. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2012.

SCHNEIDER, B. Design – Uma introdução: o design no contexto social, cultural e econômico. São Paulo: Blucher, 2010.

 

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