Talvez uma História de Amor | comédia romântica nacional com jeito americano – Design CultureTalvez uma História de Amor | comédia romântica nacional com jeito americano – Design Culture
Cinema e Séries

Talvez uma História de Amor | comédia romântica nacional com jeito americano

Sabe-se da dificuldade enfrentada pelo cinema brasileiro em produzir um filme que não contenha roupagem, roteiro e trejeito de novela; de modo que o longa quase sempre soa como uma abreviação das tramas pontuais dos horários das 18, 19 e 21 horas, cada uma com sua dose de conteúdo previsível de acordo com a faixa. Ter acesso a uma história cinematográfica, especificamente, do gênero cômico, que não tenha Leandro Hassum e companhia é, no mínimo, curioso. E curiosidade é a palavra correta para definir Talvez uma História de Amor, comédia romântica nacional que estreia nesta quinta-feira em todo país.

Mateus Solano dá vida a Virgílio, um publicitário perfeccionista que não sabe viver fora de um padrão previamente definido por ele próprio. Ao ouvir uma mensagem enigmática em sua secretária eletrônica, fica claro que uma pessoa muito importante em sua vida foi esquecida por ele. Cabe agora ao protagonista, definir a intensidade de seu sentimento, em meio a todos os seus medos e paranoias, para decidir se vale a pena sair da caixinha para redescobrir quem é Clara e o que eles viveram juntos.

Se você leu o parágrafo anterior e tem uma boa memória de cinema, certamente lembrou de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. A proposta de Talvez uma História de Amor soa similar, mas enquanto o longa estrelado por Kate Winslet e Jim Carrey se debruça sobre o amor com drama, a versão nacional opta pela comédia romântica.

A grande questão do filme em comento, que pode ressoar tanto como desajuste, como novidade brasileira, é a forma como é mostrado na tela. Uma vez que o roteiro é extraído do livro homônimo do premiado escritor francês Martin Page, fica fácil entender hábitos nada brasileiros de Virgílio, tais como o cereal matinal, o apego aos pijamas, o uso de metrô por uma pessoa abastada e a casa altamente contemporânea, mas com apelo vintage localizada em uma megalópole.

O diretor Rodrigo Bernardo, que carrega no currículo, entre produções e roteiros, apenas curtas metragens e uma minissérie, debuta no campo do longa metragem com um projeto visionário para o cinema nacional, ainda que o resultado possa soar um pouquinho estranho.

Aos amantes do quesito visual, Talvez uma História de Amor é um prato cheio de requintes técnicos. Inicialmente, a excelência do trabalho de fotografia compensa o roteiro por vezes cansativo de um protagonista que oscila entre a paranoia e a monotonia. O diretor de fotografia Hélcio Alemão Nagamine colhe o melhor dos ângulos onde janelões e paredes de vidro compõem o campo de fundo da cena, e a luminosidade sempre presente garante cenários vívidos e limpos durante quase toda a projeção. Algumas cenas banais ganham destaque graças ao mesmo departamento, tornando o filme um excelente convite para quem aprecia um trabalho visual de alta qualidade.

O último quesito visual que vale a nota é o figurino excessivamente repetido dos protagonistas. Enquanto Virgílio transita entre tons de azul e paleta terrosa para formar seu conjunto desconjuntado em todas as suas aparições de trabalho, lazer e caseiro, Clara está sempre de vermelho, não importa onde, quando e a quantos graus.

Já o roteiro comandado pelo diretor Rodrigo Bernardo ao lado de Bem Frahm e Brandon Neslund peca em vários momentos, dando a impressão de que um filme menor renderia um resultado melhor. O elenco grandioso parece enxuto ao fim, já que a maioria dos atores participa de apenas uma cena, tais como Dani Calabresa (Zorra), Nathalia Dill (Liberdade, Liberdade), Paulo Vilhena (Como Nossos Pais), Juliana Didone (O Hipnotizador), Jacqueline Sato (Psi) e a atriz americana Cynthia Nixon (Sex and the City); a exceção fica por conta de Marco Luque (Vai que Cola), Totia Meireles (Força do Querer) e Bianca Comparato (3%), além da co-protagonista imaginária durante a maior parte do tempo, Thaila Ayala (Pica Pau: O filme).

Mateus Solano é um show à parte e é sua competência para sustentar uma história – rasa para alguns e fluida para outros – que segura o público pela maior parte do tempo. Ainda que seu talento não seja passível de contestação, o filme não deixa de perpassar a reflexão de que um ator mais jovem se adequaria mais ao papel, já que desinteresse profissional e instabilidade emocional, quando atribuídos a uma pessoa jovem, fazem parte daquela etapa da vida, mas quando suportadas por uma pessoa de cabelos grisalhos, beira ao sinônimo de fracasso pessoal.

O cabelo desalinhado só reforça o desajuste entre a maturidade estampada na face e a insegurança e confusão emocional dignas de um adolescente. Para concluir as contradições, o tédio, a mesmice e a estagnação da vida pessoal do protagonista vão de encontro à profissão relacionada à criatividade, energia e movimento; o imaginário popular jamais formularia um publicitário que detesta novidades ou um jovem idoso que desenvolva anúncios publicitários geniais. Ainda assim, Solano sustenta a história firme e forte e o resultado pode ser enquadrado como, no mínimo, adorável.

Talvez o desalinho do longa seja um motivo para não ver, ou talvez seja a razão contundente para ver. É certo que por mais despretensioso que aparente, Talvez uma História de Amor em nada tem de desproposital. O filme é um convite aparentemente simples à valiosas reflexões e uma brecha na vida das pessoas que sofrem de ansiedade ou insegurança patológicas.

Munido de uma dose de empatia, é o melhor programa para ser feito a dois, em grupo ou solitariamente; afinal, contemplações são sempre eivadas de maneirismos e estranhezas inerentes à complexa individualidade dos seres humanos e é disso que esse filme se alimenta.

Talvez uma História de Amor estreou nesta quinta-feira, 14 de junho no país, o trailer pode ser visto a seguir:

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