OPINIÃO: Quando torcer contra o cinema nacional vira um desserviço à cultura brasileira
Nos últimos dias, a repercussão do filme O Agente Secreto durante a corrida do Oscar 2026 trouxe à tona um fenômeno curioso nas redes sociais: brasileiros comemorando a derrota de um filme brasileiro por razões ideológicas ou políticas. À primeira vista, isso pode parecer apenas mais um episódio de polarização digital. No entanto, quando analisado sob a lente do comportamento coletivo e da dinâmica cultural, o fenômeno revela algo mais profundo: como disputas políticas internas podem levar à desvalorização de uma produção artística que representa o próprio país no cenário internacional.
O longa, dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, foi indicado a quatro categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Ator, um feito histórico para o cinema brasileiro. Mesmo sem conquistar a estatueta, a simples presença do filme entre os principais indicados já representa um marco na visibilidade global do audiovisual brasileiro.
Além disso, o filme acumulou reconhecimento internacional significativo: venceu prêmios importantes no circuito mundial, recebeu aclamação da crítica e consolidou-se como uma das produções mais celebradas de 2025, figurando em diversas listas de melhores filmes do ano.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_08fbf48bc0524877943fe86e43087e7a/internal_photos/bs/2026/A/o/VuBDw1RKOSK7aZRzmdaw/o-agente-secreto-deve-levar-o-oscar-de-melhor-filme-defende-critico-do-the-guardian.jpg)
Um momento histórico para o cinema brasileiro
A indicação de O Agente Secreto não ocorreu em um vácuo. Ela faz parte de um movimento maior de expansão da indústria audiovisual brasileira. O país tem ampliado sua presença no mercado internacional de entretenimento, com crescimento constante nas exportações de conteúdo e aumento do interesse de plataformas globais de streaming em produções nacionais.
Nos últimos anos, produções brasileiras passaram a alcançar audiências cada vez maiores fora do país, impulsionadas tanto por investimentos institucionais quanto pela demanda internacional por narrativas culturais autênticas. Esse movimento posiciona o Brasil como um novo polo de produção criativa no mercado audiovisual global.
Nesse contexto, cada filme brasileiro que chega a grandes premiações internacionais funciona como uma vitrine cultural. Ele não representa apenas uma equipe de produção ou um diretor específico representa um ecossistema inteiro: roteiristas, técnicos, músicos, atores, pesquisadores, escolas de cinema e políticas públicas de incentivo.
O paradoxo brasileiro: quando a política supera a cultura
Apesar disso, a reação nas redes sociais revelou um paradoxo recorrente na sociedade brasileira: a tendência de avaliar produtos culturais exclusivamente pelo prisma ideológico.
Quando parte do público passa a torcer contra um filme nacional por discordar da posição política de seus criadores, o debate deixa de ser cultural e passa a ser tribal. O cinema deixa de ser visto como arte, indústria criativa e instrumento de projeção internacional e passa a ser interpretado como uma extensão de disputas partidárias.
Esse fenômeno dialoga diretamente com o comportamento de manada discutido anteriormente. Nas redes sociais, opiniões políticas são frequentemente amplificadas por dinâmicas de grupo, transformando percepções culturais em disputas identitárias. O resultado é um ambiente em que a avaliação de uma obra deixa de considerar critérios artísticos ou culturais e passa a depender da posição ideológica atribuída ao autor.

O contraste com o mundo: o fenômeno Brazil Core
Enquanto parte do debate interno se concentra em disputas políticas, o cenário internacional segue na direção oposta. Nos últimos anos, emergiu um movimento cultural global conhecido como Brazil Core (ou Brazilcore), que transforma elementos da cultura brasileira em estética e referência global.
Essa tendência resgata símbolos populares do Brasil (cores vibrantes, tropicalidade, música, moda e referências visuais do cotidiano) e os transforma em linguagem cultural valorizada internacionalmente.
O curioso é que muitos desses elementos que hoje aparecem em editoriais de moda internacionais, campanhas publicitárias e tendências digitais são exatamente os mesmos que, durante anos, foram considerados “excessivamente populares” ou “não sofisticados” dentro do próprio país.
Em outras palavras, enquanto o mundo descobre e valoriza a identidade cultural brasileira, parte do debate interno ainda oscila entre a negação e a disputa ideológica.
Cultura não é campanha eleitoral
O cinema, como toda forma de arte, inevitavelmente dialoga com política, história e sociedade. Filmes discutem regimes, conflitos, memórias coletivas e disputas de poder. Isso acontece em Hollywood, no cinema europeu e em qualquer cinematografia relevante.
Mas existe uma diferença fundamental entre analisar criticamente uma obra e torcer contra sua projeção internacional por razões ideológicas. Quando isso acontece, o prejuízo não é apenas simbólico ele afeta diretamente a percepção global da cultura brasileira.
Cada filme brasileiro que chega a festivais e premiações internacionais contribui para consolidar o país como potência criativa. Isso gera visibilidade, investimentos, oportunidades para novos talentos e fortalecimento da indústria cultural.
Torcer contra esse processo não atinge apenas um diretor, um ator ou um governo. Afeta todo o ecossistema cultural que depende dessa visibilidade.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/R/2/06YmA6RCCl0nB05Zt7zg/114253760-brazilian-actor-and-producer-wagner-moura-presents-the-best-casting-oscar-onstage-during-t-1-.jpg)
A pergunta que fica
Se o resto do mundo começa a reconhecer e consumir cada vez mais a cultura brasileira, da música ao audiovisual, da estética ao comportamentopor que, dentro do próprio país, ainda existe resistência em celebrar esse reconhecimento quando ele atravessa fronteiras?
E talvez a pergunta mais provocativa seja outra: Quando a política faz alguém torcer contra a própria cultura, o problema está na obra ou na forma como aprendemos a enxergar a cultura através da lente da polarização?
