Ato 1 – O que é De Volta à Bahia?
Sol, praia, mar, surf, muita música, culinária e um romance improvável nas belezas da Bahia! Essa é a proposta do novo filme da distribuidora Swen Filmes, “De Volta à Bahia”. Mas será que esse romance jovial com toques de drama e comédia vai conseguir levar o público nessa onda de emoções? Essa história de romance entre dois surfistas parte da seguinte coincidência – “Maya e Pedro que, por coincidências do destino, conectam-se graças a um vídeo de resgate no mar que viraliza na internet.” Os dois talentos promissores do surf descobrem que são treinados pelo mesmo mentor e ídolo do esporte, o treinador PH, que os apresenta sem ideia de que a dupla se conhece pelo salvamento. Enquanto se preparam para um campeonato decisivo em Salvador, os dois vivem um romance e enfrentam conflitos familiares particulares. As ondas irão ensinar que, para ultrapassá-las e vencê-las, é preciso encarar suas tormentas.”

Ato 2 – Comentários gerais
Bahia – Salvador, terra de muitas belezas. Comidas, arte, música, diversão e muito surf! E é literalmente o que esse filme acaba sendo. Um verdadeiro conglomerado de conveniências, músicas e exposição das belezas de Salvador. Pois, no quesito história, personagens, desenvolvimento e conclusão, ele fica no razo para fora da água.
Então, como dito antes, no filme, acompanhamos Maya (Barbara França), uma jovem modelo que retorna à Bahia para um trabalho e também busca se reconectar ao seu antigo esporte de paixão, o surf, que deixou de praticar após a morte de sua mãe, pois, agora, ela tem medo. A princípio, você pode dizer que é profundo, que é comovente, mas que, por conta de um roteiro preguiçoso, acaba ficando algo sem emoção nenhuma. Pois, o espectador não entende qual a relação da mãe com o surf, ao ponto dela criar um trauma, mas modelar e parar de viver as outras coisas de que gosta, não. Além disso, seu par romântico, Pedro (Lucca Picon), um surfista que sonha em ir para o Hawaii participar do campeonato de surf, mas ele tem medo de deixar sua mãe. Por que disso? Não sabemos por que não foi desenvolvido, é somente exposto de forma que o espectador não parece saber entender o que está sendo mostrado e precisa ser dito também, para ter a compreensão total.
Com isso, “De Volta à Bahia” acaba sendo só um cartão postal de longa duração, ou até um vídeo de clipe estendido, de tanta música que os desenvolvedores resolveram colocar a cada cena e transição. O filme é uma mistura de retalhos de outras histórias costuradas para tentar criar algo novo e falha, devido ao fato de que nada faz sentido, e tudo é muito conveniente para a trama funcionar. Todo mundo se conhece, todo mundo vira amigo, do nada surge um problema entre os personagens, sem razão nenhuma, só porque o roteiro quis, e depois está tudo certo. As coisas não têm peso, tudo nele é vazio. Fora os diálogos extremamente expositivos, a tentativa de humor que falha, o drama e conflitos que não convencem, por exemplo – a mãe do protagonista não gosta da Maya, pois ela quase “matou” o filho dela. Só que ela se afogou, e ele escolheu salvá-la, logo, a mesma não tem culpa pelos atos de Pedro, criando uma animosidade sem pé nem cabeça.
Ademais, o casal não tem química nenhuma, já que sua relação não é construída, ela é forçada num passe de mágica, no clássico amor à primeira vista. Fora a enrolação para um beijo acontecer, que hoje em dia, dadas as circunstâncias e “paixão”, teria acontecido logo. Os demais personagens não têm motivação, não têm carisma, eles só estão ali para fazer algo específico, a blogueira fazer o que uma blogueira faz, suas ações não têm peso para a trama. O mesmo pode ser dito do galã burro que fica tentando fazer piadas, o vendedor que tem muito tempo livre. Se tirar esses personagens, o filme funciona tranquilamente. Fora a montagem, que parece só um amontoado de cenas soltas, que muitas vezes não conversam entre si, ou você sente que faltou algo ser mostrado, antes de outra cena específica acontecer. A única coisa boa, que se tira por bem feito, é a dilvagação das belezas e pontos turisticos de Salvador.

Ato 3 – Direção!
A direção do filme ficou nas mãos do diretor, produtor executivo e produtor Eliezer Lipnik, responsável por projetos como Era uma Vez Anastácia (2019) e Purge of Kingdoms: A Paródia Não Autorizada de Game of Thrones (2019). A direção também conta com a roteirista e diretora Joana Di Carso, que dirigiu a série Estranho Amor (2024).
E é curioso como um projeto com dois diretores não consegue entregar muito além de planos abertos para mostrar Salvador. Os enquadramentos raramente favorecem o sentimento que a cena pretende transmitir.
Há escolhas de ângulos de câmera que parecem não fazer sentido. Em momentos que pediriam um close mais íntimo para extrair emoção dos atores, ou um enquadramento olho no olho para intensificar o drama, o filme opta por ângulos como o contra-plongée, que deixa os personagens visualmente superiores, mas não contribui para a carga emocional da cena.

Ato 4 – Atuações
O elenco escolhido é bastante talentoso e claramente se esforça para entregar algo minimamente crível nessa história. Porém, roteiro, diálogos e direção não colaboram muito para isso. Barbara França (Maya) tenta trazer uma jovem cheia de vida, alto-astral, rica e bonita, mas que não é mesquinha. A personagem, no entanto, não passa muito disso. Lucca Picon (Pedro) interpreta um surfista que sonha em competir profissionalmente e viver um amor de verão, mas seu personagem parece não ter atitude para realizar nenhum desses objetivos. Werner Schünemann (pai de Maya) fica restrito a poses de homem rico com semblante deprimido. O roteiro não lhe oferece falas que permitam ao ator mostrar melhor seu talento. Já Felipe Roque (PH) aparece como o surfista mais experiente, tentando ocupar o papel de um “Senhor Miyagi do surf”, soltando frases de efeito que buscam transmitir emoção, mas que raramente funcionam.

Ato final – Conclusão
Sendo assim, “De Volta à Bahia” infelizmente não apresenta uma história relevante, possui uma direção que lembra mais um videoclipe, diálogos simplórios e excessivamente expositivos que subestimam o espectador. As atuações acabam limitadas, os personagens têm pouco carisma e o projeto parece não saber exatamente o que quer ser: um drama reflexivo, uma aventura no universo do surf ou um romance adolescente digno de conto de fadas. No fim, o filme acaba ficando apenas no raso.
Em exibição a partir de 5 de março nos cinemas!
