Design

Design como Vantagem Competitiva

“A pré-história do design começa na Inglaterra, com o conceito de padronização da produção, que dissociou a concepção de um objecto da sua fabricação.” (Mozota, 2011) Um dos momentos mais importantes da conversão do design em uma profissão foi a crise económica de 1930, nos estados Unidos, esta fase trouxe a rebalta a consciência de que o design poderia fazer diferença no comércio, o que estimulou a emergência de designers industriais com formação em áreas concretas como: gráfica, decoração, teatro, publicidade e outros. Basicamente o trabalho destes designers na época consistia em fazer o redesign dos produtos para instigar o consumidor à compra. Um exemplo interessante neste período foi o trabalho de Raymond Loewy, citado como um dos designers mais importantes do século XX, responsável pelo redesenho da geleira “Coldspot Super Six”, que teve suas vendas aumentadas em 400%, após o redesign.

Em 1890 a Alemanha acelera a industrialização para competir com Inglaterra a França. Arquitectos como Richard Riemerschmid, defendiam a ideia de que o design devia acompanhar a produção industrial.

Pode-se afirmar que o design tem origem na arte e no artesanato, no entanto, a exigência de um mercado competitivo e a necessidade de responder às necessidades dos consumidores exigiu a intervenção da indústria e padronização dos produtos de design. A ideia de competitividade baseada em design começa a ganhar forma a partir do momento em que do manual, os produtos passam para a máquina, e dá o verdadeiro sentido ao que hoje chamamos “design”.

“Até meados do século XX, o discurso projectual centrou-se na produtividade, na racionalização e padronização. Processos de produção industrial, como o “fordismo[1]”, e o “taylorismo[2]”, determinam metodologias para agilizar a produção, obrigando o mercado a seguir o modelo para diferenciar desenho de comunicação do campo de arte, fornecendo maior credibilidade à nova disciplina do design nas empresas.” (Gui Bonsiepe, 1997) citado por (Bomeny, 2009)

“ (…) embora a humanidade tenha sempre manufacturado os bens artesanalmente, para seu uso e comunicação, as origens do design são traçadas a partir do auge da Revolução Industrial.” (FAGGIANI, 2006:54)

O VALOR DO DESIGN

O crescimento acelerado das empresas que apostam na inteligência do design como sua forma de estar mostra o valor do design para o crescimento empresarial. O design liga pessoas, e faz uma conexão entre estas e produtos ou serviços fornecidos.

Design faz ligação entre o plano físico e espiritualdas pessoas.” (Kenji Ekuan, 1996)

Em Gestão de Design, Mozota (2011) propõe o modelo para criar valor na empresa em três pilares:

  1. Design como diferenciador: Quando o objectivo da estratégia de design busca criar uma marca melhor, focado em aprimorar o produto, a embalagem ou o desempenho do serviço, com isso aumentar o valor financeiro incrementando as vendas, as exportações e o valor percebido pelo cliente.
  2. Design como coordenador: Quando o objectivo da estratégia de design consiste em administrar a mudança no processo de inovação. O design neste contexto criar valor porque ajuda a coordenar as funções, evita conflitos e motivas as equpas multidisciplinares e melhora a comunicação.
  3. Design como transformador: Quando o objectivo da estratégia de design é o de melhorar o relacionamento entre a empresa e o seu ambiente, antecipando uma visão clara dos novos mercados e da concorrência, criando novos mercados e prevendo tendências e por conseguinte, ter um efeito sobre o posicionamento da firma. O design contribui para a gestão da mudança e para o processo de aprendizagem nas organizações.

Design cria estímulos cognitivos e sensoriais: a forma criada a partir do design provoca estímulos cognitivos e sensoriais. O consumidor aprende com a percepção, e o que ele aprende influência nas suas escolhas futuras, a peça do design quando projectada, geralmente considera o ser humano como um ser psíquico e com sentidos.

Design proporciona boas experiências: geralmente quando as pessoas vêem coisas “bonitas” dizem que “tem um bom design” e para além disso o design está directamente ligado aos efeitos positivos e experiências prazerosas (ou não);

Design trabalha o sentimento: o design promove reacções positivas nos consumidores. Trabalha com sentimento, pensamento do consumidor. As nossas escolhes como seres humanos são também influenciadas pelo sentimento que o design provoca através das experiencias que proporciona;

Design é parte do contexto: odesign projecta numa tentativa de serem reflexo social, como parte de um determinado contexto cultural, social, uma das principais razões de compra. Só escolhemos um peça que, apesar de ser diferente, tem inserção sobre o nosso contexto e a escolhemos parte ser nossa e reflectir os nossos valores sociais.

Design cria características: daí que podemos também considerar o designer como “criador do futuro”, no sentido de que ele precisar propor uma solução que muitas vezes não existe, nesse processo ele está a criar o futuro. O processamento visual é um forte facilitador da aquisição de informação, e automaticamente de preferências do consumidor. O consumidor, neste caso só escolhe baseado em características visuais criadas pelo designer;

Design cria acrescenta valor: um produto com um bom design, mesmo que seja semelhante ao outro, provavelmente se torna caro, por causa de seu bom aspecto e experiência.

DESIGN COMO VANTAGEM COMPETITIVA

O valor do design, a sua implementação, mostra como é que uma empresa que oferece produtos ou serviços pode estar um passo a frente em um mercado com tantos produtos e serviços semelhantes. Hoje o design afirma-se, em todo o mundo, como uma das mais importantes disciplinas, e presente em quase todos sectores da actividade humana. No comércio, um dos principais elementos para escolha de um produto físico, por exemplo, é o design. O design funciona como elemento diferenciador dos produtos ou serviços, ele evidencia suas qualidades, seus atributos tangíveis e intangíveis. O design comunica valores, faz parte da identidade da empresa. Ajuda a criar uma identificação entre os consumidores e a empresa.

“O que faz, nos dias de hoje,com que seu produto seja seleccionado em detrimento de outros, num mercado detantas ofertas  é o design.” Kátia Faggiani

“Quando o Wal-Mart reiventou a relação comercial com os seus fornecedores por meio de uma estratégia de sustentabilidade socioambiental, com pactos como o do Cerrado e o da Amazonia, a empresa não so provocou mudanças no estimulo a novos produtos e serviços desenvolvidos pela indústria como redesenhou a cadeia de suplementos do varejo brasileiro e a própria relação com seus fornecedores – e destes com os provedores de matéria-prima. Trata-se de uma extraordinária aplicação do design (ou, no caso, redesenho) que repensou toda cadeia de valor.” (Mozota, 2011)

O estudo Design Economy realizado pela British Design Council, no período entre 2009 e 2013, revelou que:

  1. As organizações que investem em Design ampliam o rendimento de produção de seus colaboradores;
  2. Os profissionais com algum diferencial ligado ao design em suas tarefas, foram 41% mais produtivos que a média;
  3. O PIB da economia do design cresceu 27,9% em comparação ao aumento de 18,1% na economia em geral do Reino Unido;
  4. O sector de design no Reino Unido gerou £ 71,7 bilhões, ou 7,2% do total do PIB britânico;
  5. Os colaboradores envolvidos com Design contribuíram com uma média de 47,4 libras  (US$ 78,8) cada um, para a economia do Reino Unido, em 2013, ao passo que os trabalhadores de todos os outros sectores contribuíram com cerca de 33,6 libras (US$ 51,6).

 “Após o “Wall Street Crash” de 1929, o governo americano decidiu fazer de tudo para aumentar o consumo de produtos e assim estimular a economia. Dessa forma, tornou-se fundamental para os designers criarem produtos de forma que sua aparência e aspecto instigassem os consumidores à compra.” (Faggiani, 2006, p. 56) 

Em2001, o British Design Council realizou uma pesquisa, com o objectivo dedescobrir como o design, a inovação e a criatividade contribuíram em diversasempresas e as conclusões foram resumidas nos dados que se seguem:

Aumento da rotatividadeem 51%; Melhor imagem da empresa em 50%; Aumento dos lucros em 48%; Aumento doemprego em 46%; Melhor comunicação com clientes em 45%; Melhor qualidade de serviços/produtos em 44%; Aumento da participação no mercado em 40%; Desenvolvimento de novos produtos em 40%; Melhor comunicação interna em 28%; Redução de custos em 25%.

Perceber como o design coloca as empresas a frente dos seus concorrentes torna-se, hoje uma tarefa importante para os gestores, falamos aqui do design na sua mais complexa dimensão, do tangível ao intangível. Perceber como o design ou redesign de uma marca pode ser importante para o seu posicionamento pode trazer benefícios imensuráveis, desenhar todo sistema de produção até a entrega, a recepção, a experiência e o sentimento do consumidor são um grande diferencial quando no final a ideia for estudar e comparar números. Hoje o design está presente em praticamente tudo, e resume-se em detalhes, no que marca o consumidor, no que este vai sentir depois de experimentar.

“Quinze anos atrás, as empresas competiam em preço. Hoje em qualidade. Amanhã será no Design.” – Robert Hayes, professor, Harvard Business School

Para terminar este texto, incapaz de responder a todas inquietações de quem procurapor respostas perfeitas, partilho um palavras de Raymond Loewy:

La laideur se vend mal (a feiura não vende), 1963

“Há muito muito escrito sobre a função e estética. Entretanto, a teoria comum é: ‘todas as coisas que funcionam bem são visualmente harmoniosas’ ou ‘se a função for respeitada, a harmonia das formas se materializará automaticamente’.

“De facto, parece que não pode haver beleza sem ordem. Uma máquina debulhadora trabalha de um modo maravilhoso, com cada uma de duas peças perfeitamente projectadas, embora o todo não seja tao bonito de ser ver. Por quê? Porque a máquina parece ser complicada.

“Esta é, creio eu,  a verdadeira resposta às teorias do ‘designer industrial’. Parece que, mais do que a própria Função da estética, a Simplicidade é o factor decisivo na equação estética.

‘Beleza a partir da Função e da Simplificação’.

“Além disso, em seu tributo à beleza, o design industrial compensa também de outra maneira. Ele é um sábio investimento, pois favorece o que vende bem.”



[1] Termo criado por Henry Ford, em 1914, faz referência aos sistemas de produção em massa.

[2] Modelo de administração desenvolvido pelo engenheiro norte-americano Frederick Taylor (1856-1915) caracteriza-se pela ênfase nas tarefas, objectivando o aumento da eficiência ao nível operacional.

Clique aqui para comentar ( )