Cinema e Séries

Maria Madalena | enfim, sua verdadeira história

Aquilo que pode ser considerado como uma das maiores injustiças do Cristianismo ganhou, enfim, um longa-metragem que afasta as inverdades propagadas pela cultura cristã nos últimos 2.000 anos. Reconhecida pelo Vaticano desde 2016 como a Apóstola dos Apóstolos, Maria de Magdala, que sequer foi prostituta em sua vida, ganha um filme biográfico que narra as origens e a devoção de Santa Maria Madalena aos ensinamentos de Jesus Cristo, no período compreendido entre o abandono da casa de seu pai até a crucificação de seu mestre, em 33 d.C.

Protagonizado por Rooney Mara, que está excelente no papel, Maria Madalena foge da abordagem comum dada a filmes bíblicos (até porque sua verdadeira história não está no cânone das Escrituras) e traz uma perspectiva sensível e humanizada à vida do Messias e seus seguidores. O tratamento dado a Jesus de Nazaré e seus apóstolos em muito se assemelha ao resultado visto em Ressurreição, longa (excelente) de 2016 estrelado por Joseph Fiennes. Em ambas as obras, Jesus é visto como um homem comum que atrai multidões por onde passa e tem sempre a mensagem certa para passar a suas plateias; o lado divino escapa por olhares, palavras e mãos gentis.

Dessa vez, o encarregado do papel foi Joaquim Phoenix (eternizado por Gladiador). O ator repete a parceria com Rooney Mara que pode ser conferida em Ela (2013) e Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot, longa que deve estrear em meados de julho desse ano, ainda sem título em português. O roteiro assinado por Helen Edmundson e Philippa Goslett deixa claro que a presença de Madalena não era bem quista na maioria dos lugares por onde passou. Inicialmente, a inadequação na vida familiar reside na sua resistência ao casamento, para desagrado do pai e dos irmãos; posteriormente, já como seguidora de Jesus, o fato de ser a única presença feminina em meio aos discípulos incomoda a maioria dos homens. A deferência com que Jesus a trata também é motivo de ciúmes entre os outros seguidores e a inteligência que Maria de Magdala demonstra em meio a maioria dos outros não-instruídos é motivo de apreço para o líder e de inveja para os demais.

Dessa ambientação, brotam valiosas lições de feminismo para a plateia desavisada. Quem espera conferir um filme sobre uma prostituta arrependida ou sobre uma mulher obediente dará viagem perdida. A Madalena aqui delineada vem de uma origem religiosa, nutre um amor velado e casto por seu mestre e desafia a todos com sua independência e pioneirismo. Ao perceber que o público feminino não se aproxima de Jesus por receio de punição doméstica, Madalena o leva ao lugar onde elas frequentam, e como forma de respeitar o distanciamento entre gêneros, ela própria batiza essas mulheres. Isso é apenas uma amostra do quão revolucionário esse filme é.

As situações retratadas no longa podem surpreender os que tiveram uma educação religiosa que retratava a personagem como alguém completamente diferente do que essa história traz. De fato, é indubitável que as pesquisas para a obra em comento extraem material de estudos recentes publicados e reconhecidos pelo Vaticano apenas em 2016. Nessa ocasião, o Papa Francisco intitula Madalena como a Apóstola da Esperança e concede um dia de festividade católica em seu nome. Desde então, alguns grupos lutam pelo reconhecimento de tais fatos e o filme que aqui se comenta é uma valiosa bandeira para sua defesa.

Por falar em reconhecimento feminino, boa parte da equipe técnica do longa é composta por mulheres. O figurino assinado por Jacqueline Durran (A Bela e a Fera) conseguiu demonstrar delicadeza através dos trajes mais simples possíveis, em véus bordados e tecidos naturais; a direção de arte de Cristina Onori (Roma) e o design de produção de Fiona Crombie (Una) apelam para a simplicidade como caminho para o sublime. A trilha sonora de Hildur Guonadóttir (A Chegada) e Johann Jóhannsson (A Teoria de Tudo) soube ser pontual, sentimental e intensa. A fotografia de Graig Fraser (Rogue One) explorou a luz solar como poucos e conseguiu tirar os melhores ângulos de cavernas, praias e rochedos. O diretor Garth Davis (que dirigiu Rooney Mara em Lion: Uma Jornada Para Casa) trilhou um trajeto único ao apresentar para o público uma Maria Madalena regenerada, sábia a todo tempo e resiliente.

O elenco de apoio finaliza com atuações impecáveis com destaque para Pedro (Chiwetel Ejiofor), Judas Iscariotes (Tahar Rahim) e Maria (Irit Sheleg). Enquanto Pedro nutre aspirações políticas para o reino prometido por Jesus, Judas ambiciona rever a família morta pelos soldados romanos. Em meio a vários desentendidos, Madalena parece ser a única que compreende verdadeiramente os propósitos e as decisões de Jesus e convida discípulos e desconhecidos a se conectarem a algo maior em um futuro não tão próximo como o esperado.

Por essa e outras razões, Maria Madalena é uma revolução ao ideal feminino, cristão, social e humano. Um filme que merece ser visto, revisto, estudado e debatido.

Maria Madalena estreia nos cinemas brasileiros na quinta-feira, 15 de março. Assista o trailer no link a seguir:

 

 

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