Victoria e Abdul | improvável amizade entre monarca e servo indiano conquista corações – Design CultureVictoria e Abdul | improvável amizade entre monarca e servo indiano conquista corações – Design Culture
Cinema e Séries

Victoria e Abdul | improvável amizade entre monarca e servo indiano conquista corações

Nada no mundo consegue ser mais tradicional que a monarquia britânica, e acaso esse comentário se volte aos séculos passados, o peso da tradição só é reforçado. Nesse panorama, Victoria & Abdul, O Confidente da Rainha é uma quebra do protocolo real tão contundente ao ponto de tornar-se filme.

O diretor inglês Stephen Frears narra a obra com a desenvoltura de quem repete o tema, considerando seu trabalho em A Rainha (2006), que aborda a situação periclitante da família real britânica – e especialmente da Rainha Elizabeth II – após o falecimento de Lady Di, em 1997. A protagonista Judy Dench compartilha da mesma familiaridade e autoridade para o papel, haja vista sua atuação em Sua Majestade, Mrs. Brown, longa de 1997 onde a veterana dá vida à Rainha Victoria (1819-1901) em meados do falecimento de seu marido, príncipe Albert.

No caso de Victoria e Abdul, a biografia de Sua Majestade se situa no alto de sua velhice amarga, quando a viuvez já a acompanha há mais de 30 anos e todos ao seu redor anseiam pela sucessão do trono, considerando que até então, o seu reinado de 63 anos fora o mais longo da monarquia britânica (recorde quebrado por Elizabeth II, sua tataraneta, em 2015).

Assolada pela tristeza e pelo isolamento inerente ao cargo, Victoria encontra em Abdul Karim (Ali Fazal), um servo indiano enviado ao Palácio de Buckingham para ofertar à imperatriz da Índia (a própria Victoria) uma moeda comemorativa, um amigo bastante improvável. Abdul é vivaz e apaixonado por seu país e passa a ensinar à rainha os costumes, o idioma e a cultura do seu povo, até então governado e desconhecido por ela. O choque cultural foi explorado com maestria pelo enredo e o encantamento da alteza anciã enche os olhos da plateia.

A ambientação da Inglaterra do final do Século XIX e o figurino robusto e impecável compõem o ar real que embalam o longa. A riqueza da Inglaterra contrasta com a exuberância visual da Índia e o filme sabe oferecer o melhor dos dois mundos sem deixar de fora a crítica política pela invasão britânica. O melhor exemplo disso é quando Abdul discorre sobre um valioso diamante indiano que Victoria prontamente comunica que foi adicionado à sua coroa. O desapontamento do servo indiano é mais que contundente para elucidar o marco histórico da colonização.

O entrosamento dos dois atores é visível e o complô que se forma em torno dessa dupla faz com que o longa caminhe entre a comédia e o drama. O preconceito ficou bem marcado e o grau de veracidade das atuações garante risadas e indignação por parte da plateia, que se maravilha e sofre junto com os percalços de Abdul, que suporta sabotagens diversas, inclusive por parte do filho da rainha.

Mesmo que aborde temas indigestos, a obra não perde sua leveza e é certo que o resultado se volta mais à positividade da amizade do que a todo o grupo ao redor que condena a relação amável entre a monarca e o indiano muçulmano. Uma vez que a trama é baseada em fatos reais, o roteiro tem a preocupação de esclarecer o destino dos personagens a partir do final dos eventos apresentados e revela como uma história tão graciosa foi mantida em sigilo até o ano de 2010.

Victoria e Abdul acaba sendo o tipo de produção que acalenta o público com o poder de uma situação adorável e verdadeira. Essa magia não pode ser garantida por nenhum efeito especial e tem o dom de provar ao público que, por vezes, a realidade pode ter mais fascínio e incredulidade do que a mais fantasiosa das imaginações hollywoodianas.

O filme estreou na última quinta-feira, 16, e o trailer pode ser conferido no link abaixo:

Clique aqui para comentar ( )