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A tipografia deve ladrar!

Ana Hatherly escreveu que “A escrita é uma pintura de palavras”, como se o recurso através do qual se faz a escrita (a tipografia) tivesse poder de expressão, de dizer alguma coisa para além do verbal. Se concordarmos que em uma obra de pintura o indivíduo que a executa expressa um sentimento, uma visão, a forma resultante desse exercício mostrará (ou tentará) o seu estado de espírito, que vai além do conjunto de cores e formas, e se tivermos uma educação artística suficiente, também veremos além do visível, sentiremos.

O nobel de literatura 1954, o escritor norte-americano Ernest Hemingway, provavelmente com a mesma ideia no campo da literatura, escreveu: “Se um prosador sabe o suficiente acerca daquilo de que está a escrever, pode omitir coisas que sabe que o leitor, se o escritor está a escrever com suficiente autenticidade, terá um sentimento dessas coisas tão fortemente como se o escritor as tivesse declarado. A dignidade de movimento de um icebergue é devida a só um oitavo dele estar acima da água”.

Vasco Mahumane, designer moçambicano, a quando da realização da primeira edição da DEZAINE Conference em Maputo (Moçambique) pela DESIGN Talk e Revista DEZAINE, ao apresentar um caso de estudo sobre tipografia e expressividade afirmou: “a tipografia, para além de se ler cão deve ladrar!” Não se trata apenas de ler simples palavras, de juntar letras do alfabeto, mas de selecionar ou criar aquela que realmente carrega a voz do projecto em causa. É preciso fazer o leitor ver e sentir o cão ali. Este pareceu um exemplo com força sobre o poder que a tipografia poderá ter em projectos de comunicação, motivo mais do que suficiente para ser a base do título deste texto.

A questão a que se nos é chamada a reflectir acerca, é a tipografia enquanto poesia visual, enquanto expressão, uma dimensão muito além do texto, subjectiva até. A tipografia enquanto elemento composto verbalmente e visualmente.

Numa longa tese de mestrado, com o título: Tipografia, Imagem e Expressão: Uma tentativa de desprender a palavra escrita do seu significado verbal, José de Freitas (2018), afirma que “Até a Revolução Industrial, a tipografia era considerada um instrumento para a transmissão de mensagens verbais, e tudo o que foi desenvolvido de desenho tipográfico era destinado à aplicação em livros.” Entretanto hoje, acrescenta o autor: “a tipografia ganha outro atributo: além da função de transmitir informação, de esclarecer o texto e de ser legível, se converteu em um dos protagonistas mais ativos da comunicação visual, ajudando a criar identidade e sendo reconhecida pelo leitor, conscientemente ou não.”

Melo (1993) afirma que “não existe neutralidade na palavra escrita: qualquer que seja a maneira gráfica utilizada na apresentação de um texto – manuscrito, dactilografado, tipográfico -, ela sempre estará sugerindo ao leitor alguma interpretação.” Mesmo que aquele que escreve o texto não esteja ciente do efeito que poderá causar ao leitor isso sempre acontecerá. Ao captar uma forma de escrita o leitor é colocado numa situação de atribuir significados, um conjunto de sensações se o apossa. Inevitavelmente. Os sentidos são postos a trabalhar, de forma quase instintiva, o individuo constrói significados acerca do que lê, capta a expressão, certa ou errada.

Este exercício de construir significados ao se deparar com uma tipografia em um determinado projecto está ligado a própria história da evolução do homem, enquanto ser que significa as coisas, que vê, sente e atribui significados, portanto, inevitável. Muitas vezes, não de forma metódica, consciente, lógica, mas sempre vai acontecer. Um sentimento de confusão, de paz, de compreensão, de questionamento, entre outros podem ser gerados perante uma tipografia.

A significação dada à forma de escrita acontece de forma natural, recorrendo a uma espécie de “biblioteca gráfica”, construída durante o tempo, para compreender o significado das formas visuais.

Quando o designer tem nocção sobre as possibilidades da tipografia para além da escrita verbal, ele evolui para explorar um campo mais subjectivo, o campo da expressão, dos sentimentos. A tipografia, no sentido visual pode ser útil para reforçar a mensagens, as possibilidades se ampliam. Saber porquê escolhemos uma tipografia em detrimento de outra, porquê construímos uma original no lugar de usar uma existente ajuda-nos a reflectir não apenas na tipografia como um mero adereço, mas sobre a sua verdadeira utilidade e o objectivo que com ela queremos alcançar.

Timothy Samara, sobre a tipografia verbal e expressão desta, afirmou:

“Quando adquirem a forma visual, as palavras se tornam imagens e ao mesmo tempo mantém o seu significado verbal. A natureza dual da tipografia é uma força poderosa para a comunicação. Dentro de uma única letra, palavra ou frase existe o potencial para transmitir, simultaneamente, uma mensagem verbal clara com mensagens simbólicas ou emocionais que se enriquecem mutuamente.”

Estas nocções, me parecem, não apenas ideias aplicáveis ao que podemos chamar de projectos “muito mais visuais”, mas igualmente podemos imaginar que sejam úteis na paginação de livros, e, claro, associados ao público leitor e a leiturabilidade. É óbvio que o campo aqui pode ser menor se comparado a um projecto de cartaz ou logotipo de uma identidade visual. Cabe ao designer determinar a tipografia adequada para cada livro ou colecção. E não se trata apenas da tipografia, existem casos em que a o seu tratamento, a disposição, a posição e forma que se dará a este é determinante.

Cada tipo emite uma mensagem diferente, mesmo que a palavra escrita seja exactamente a mesma. A expressão tem muito a ver com o que está para além da palavra verbal.

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