Cinema e Séries

A vida em prol da Arte, confira No Portal da Eternidade, cinebiografia de Van Gogh

Talvez você se pergunte sobre a pertinência de uma publicação que trata de um filme estrelado há mais de um mês e que, possivelmente, deve estar disponível em poucas salas de cinema neste momento. A resposta para isso se encontra nas próprias inquietações que seu protagonista oferece ao público: a arte e sua apreciação é sempre atemporal.

Aos criativos que me leem, adianto que No Portal da Eternidade é o tipo de filme que deveria ser exibido em salas de aula de quaisquer cursos que buscam o desenvolvimento da criatividade e da arte. E quem seria um mentor melhor do que Vicent van Gogh para estimular aqueles que vivem do belo a darem continuidade à sua missão? Missão essa que é facilmente desvalorizada por quem não se sensibiliza com a busca íntima para expressões artísticas.

O caminho da arte, ensina van Gogh, é sempre o caminho do flerte com a atemporalidade. Morre o artista, mas antes de ir, imortaliza seu ponto de vista sobre o mundo em telas, cores, invenções e perspectivas tão personalíssimas, quanto profundas. Conhecer a imaginação de alguém é ter acesso ao local mais fundo de sua mente, sempre eivada de dores e amores.

A beleza retratada n’O Portal da Eternidade ultrapassa a esfera do estético e consegue se debruçar sobre a mente triste e perturbada de um dos maiores gênios da pintura impressionista, ainda que isso apresente o inquieto e o indigesto para o público. O filme adota a perspectiva de todas as doenças mentais que assolavam van Gogh e expõe a beleza contida na dor, no sofrimento e no delírio de alguém com a visão tão única sobre a vida que escalou os degraus da eternidade no ramo ao qual dedicou toda sua vida e energia.

Para fins de compartilhamento de mérito, vale destacar que o ator Willem Dafoe (Projeto Flórida), indicado ao quarto Oscar graças ao magistral papel de van Gogh, aprendeu a pintar como o artista, para conseguir gravar as cenas onde o pintor aparece produzindo seus famosos quadros. Para aqueles que conhecem um pouco do acervo de Vicent van Gogh, o filme apresenta tomadas e cenários que acabaram imortalizados nas obras do protagonista e causam pequenos sobressaltos a uma plateia detentora desse conhecimento.

Ao descrever seu trabalho como uma captura da luz do sol, Vicent van Gogh estabelece sua relação com o divino e consegue consagrar sua vida ao que de mais belo existe em meio às dores da existência. É irônico pensar que o pintor responsável por atuais lances milionários viveu seus efêmeros 37 anos de vida sem ser reconhecido e capaz de vender um único quadro de sua autoria (mesmo tendo um irmão marchand). Atualmente, um museu na Holanda, sua terra natal, abriga a maior parte de sua produção artística, que fora iniciada aos 27 anos e perdurou até sua morte, o que indica uma faixa de produção de pinturas de até duas por semana.

As obras que hoje valem milhões em casas de leilões prestigiadas são oriundas de um trabalho árduo e solitário que nunca fora prestigiado enquanto seu mestre vivia e produzia. E aqui, fixa-se mais uma lição contundente a ser extraída da película: o valor da arte é superior à vida do artista. A epifania estética que tomou van Gogh em sua curta passagem pelo mundo foi suficiente para que a retratação da natureza e da vida maravilhassem gerações e gerações de apreciadores vindouros. Parece que a vida e a luz contida nos quadros permanecem pulsantes, ainda que séculos a sucedam.

Ao se inquirir sobre a razão de continuar pintando, mesmo que nunca tenha obtido algum êxito profissional, van Gogh conclui que arte é a única tarefa que lhe incumbia e a única paixão que mantinha a chama da vida. Para que suas inspirações fossem devidamente reconhecidas no longa, o excelente trabalho de fotografia do francês Benoît Delhomme (A Teoria de Tudo) permitiu ao diretor e roteirista Julian Schanabel (O Escafandro e a Borboleta) que o interior francês fosse verdadeiramente a fonte de toda inspiração colorida para um artista com vida monocromática.

Vicent van Gogh ensina a cura através da doença, demonstra razão em meio à loucura e convida à contemplação de toda a beleza que existe despercebida no mundo e nas pessoas, fazendo com que No Portal da Eternidade se cristalize como uma lição sobre arte, sobre morte e vida, sobre a captação do efêmero e o caminho que o torna perpétuo, e sobre a persistência do gênio que tem como única certeza a inspiração para montar seu cavalete e captar o que de esplêndido seus olhos enxergaram.

Ainda que nenhuma palavra acima registrada seja suficiente, o trailer do link abaixo poderá ser tudo que você precisa para se convencer de que No Portal da Eternidade é um filme de cabeceira para toda e qualquer pessoa que materialize beleza através do que a criatividade é capaz de oferecer ao mundo.

Como toda arte que flerta com o eterno, as salas que o exibem podem ser escassas, mas o registro perdurará nos streamings internet a dentro.

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