Cinema e Séries

Conheça a Londres sobre rodas de Máquinas Mortais

No dia que a tecnologia quântica for o principal instrumento bélico à disposição no mundo, é certo que não restará muito do que estamos habituados a conviver. Enveredado em um mundo onde estátua de Minion é resquício da civilização norte-americana, as cidades sobre rodas buscam por sobrevivência, dominação, mantimentos e combustíveis em meio ao já conhecido cenário pós-apocalíptico.

Dirigido pelo estreante na cadeira Christian Rivers (oscarizado em Efeitos Especiais por King Kong) e produzido por ninguém menos que Peter Jackson (O Hobbit e O Senhor dos Anéis), Máquinas Mortais é uma história distópica contada inicialmente em livro, escrito por Philip Reeve em 4 volumes (que estão sendo publicados no Brasil este ano) que narra a saga de Hester Shaw (Hera Hilmar) na busca por vingança pelo assassinato de sua mãe, uma arqueóloga que entrou no caminho do vilão Thadeus Valentine (Hugo Weaving).

Visualmente, o filme consegue ser encantador ao apresentar a mini versão de uma Londres ambulante, com direito à Catedral de St. Paul e várias cabines telefônicas espalhadas pelas ruas escalonadas em plataformas. Movido por uma precária engrenagem mecânica, o resultado ficou interessante quando se analisa como os pequenos detalhes da cidade britânica foram adaptados a um cargueiro terrestre. Quando viver isolado se torna um perigo e os poucos recursos se espalharam pelo mundo, nada mais lógico do que uma cidade-tração para o percorrer.

Se os detalhes curiosos despertam a atenção do público, o roteiro peca por ser incapaz de apresentar algo realmente novo. A história mescla a bravura adolescente steampunk e retrofuturista vista aos montes no cinema (Maze Runner, Divergente, Jogos Vorazes) ao lado da escassez de recursos e a iminência de algo pior acontecer (Resident Evil, Mad Max) graças ao vilão ávido por dominação. Ambientados nas vistas espetaculares da Nova Zelândia (a locação favorita de Peter Jackson), o filme conta com alguns fôlegos visuais e efeitos interessantes, mas oferece um roteiro ramificado de uma história multifacetada que desnorteia até o mais atento dos espectadores.

Em meio a alterações de vilão, protagonista, casais, propósitos e passados vasculhados, a sensação que fica é que se assiste a vários filmes em um só. Soa como se múltiplas boas ideias fossem apresentadas de uma única vez, o que acaba por embaralhar o brilho individual de cada uma e permite que o público se perca nesses capítulos. De todo modo, quem curte efeitos especiais, visuais inusitados e cenários impensados até então, Máquinas Mortais é um prato cheio nesse quesito.

O filme não se esquiva de realizar pesadas críticas sociais que soam bastante trumpianas, ainda que se passe nos anos 3.000. A questão da colonização política de outras cidades, a problemática em torno do recebimento de imigrantes e o descaso ambiental que culminou no colapso do mundo são fatores que destacam o viés politizado da obra e conferem profundidade a uma trama que vem sofrendo duras críticas e encerrou 2018 como a maior decepção de bilheteria dos Estados Unidos.

Não se questiona que Máquinas Mortais é uma obra essencialmente visual, que conquista pelo que mostra de um mundo onde tela quebrada de iPhone é relíquia milenar e ferrugem é a cor predominante na vida das pessoas. Vale a ida ao cinema, ainda que fique claro que nada muito novo será apresentado. Entrementes, se a fórmula, ainda que batida, funciona, é por ela que a indústria se guia.

Máquinas Mortais estreia nesta quinta-feira, 10 de janeiro. Confira o trailer a seguir:

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