Cinema e Séries

Mark Felt | a história do homem que derrubou a Casa Branca

Uma investigação federal inicialmente simplória começa a ameaçar o alto escalão do governo, afetando nomes célebres, inclusive, do Presidente da República. As tentativas de abafar a operação partem do próprio governo, que adota um jogo de topa-tudo para conquistar a reeleição. Se você acha que estamos falando da Operação Lava-Jato, se enganou. Os fatos aqui narrados versam sobre o único escândalo que derrubou um presidente norte-americano e se passa na década de 70 no Estado de Washington D.C., capital dos Estados Unidos.

Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca, do diretor, jornalista político e roteirista Peter Landesman (responsável pelos roteiros de JKF – A História Não Contada e Um Homem Entre Gigantes), conta a trajetória do vice-presidente do FBI, Mark Felt, e a forma como foi conduzida a investigação que levou à renúncia do presidente Richard Nixon, em 1972, conhecida como Operação Watergate.

Nesse panorama, o início da trama se dá nos dias que sucederam à morte de J. Edgar Hoover, o homem que conduziu o FBI com mão de ferro por 48 anos e levou consigo segredos que o transformaram em uma das pessoas mais temidas e poderosas dos Estados Unidos. Hoover tem seu próprio filme, J. Edgar (2011), estrelado por Leonardo DiCaprio e dirigido por Clint Eastwood. O longa sobre Mark Felt pode ser considerado uma espécie de continuação no que se refere aos bastidores do FBI nessa época.

Para o papel principal, temos um Liam Neeson (Busca Implacável) quase irreconhecível. O presente longa pode ser considerado um dos poucos filmes da atualidade onde Neeson não está armado ou correndo contra o tempo. Muito pelo contrário, Mark Felt é um distinto senhor de cabelos brancos que já leva nas costas 30 anos de serviços prestados ao FBI com rigor venerável e divide seu tempo entre os problemas do trabalho e a instabilidade familiar, marcada pela insatisfação da esposa Audrey (Diane Lane) e pelo sumiço da filha adolescente Joan (Maika Monroe).

O filme narra de forma biográfica as passagens de Mark Felt entre o ano anterior à eleição que resultou na reeleição de Richard Nixon para a Casa Branca até meses após o início do segundo mandato, desenhando de forma muito sutil como a investigação sobre espionagem no gabinete do candidato concorrente levou o governo a interferir diretamente no FBI para garantir o resultado eleitoral.

Com a morte de J. Edgar, Felt seria considerado seu sucessor natural na diretoria do órgão, entrementes, o poder ilimitado que seria dado ao investigador estava tirando o sossego do governo, que convoca Pat Gray, um oficial da Marinha sem nenhuma experiência no departamento para substituir o lendário Hoover.

A partir disso, Mark Felt, sob o codinome Garganta Profunda, adota práticas nada ortodoxas para fazerem com que a operação não seja dissolvida e repassa aos jornalistas do Washington Post, Carl Bernstein e Bob Woodward, furos de reportagem que criaram na mídia uma forte pressão a favor da continuidade da investigação. Isso gera uma hostilidade sem precedentes entre órgãos e colegas de trabalho. O vazamento das informações leva a um jogo interno de disputas e dúvidas que levariam 3 décadas para serem corretamente desvendadas.

A obra consegue oferecer uma trama burocrática de qualidade, que adota ares de filme de ação devido ao poder das pessoas envolvidas em escândalos sem precedentes na Casa Branca. A plateia brasileira vai se sentir bastante familiarizada com a sensação de que a política e o país vão implodir a cada capa de jornal exibido durante as manhãs nação afora.

Diane Lane faz um par à altura de Liam Neeson no quesito profundidade emocional. Enquanto Mark leva consigo segredos de Watergate que colocam em risco o futuro político da nação, Audrey demonstra abertamente o abismo sentimental que se abriu em sua estrutura familiar que a torna incapaz de se ressentir pelo afastamento da filha do casal, e, ao longo do tempo, oferece explicações razoáveis sobre seu passado. A atuação da atriz consegue, em alguns momentos, ofuscar a trama política que seu companheiro vivencia e leva o público a se preocupar em igual intensidade com os desdobramentos dessa personagem.

Em que pese o teor histórico da obra, o filme se destina àqueles que não dispensam uma trama bem fundada, que retrata o lado obscuro da instituição mais respeitada do mundo e a coragem de um homem que colocou o dever e a moralidade histórica do seu local de trabalho acima da sua própria reputação, fazendo com que a investigação fosse superior ao órgão que deveria conduzi-la corretamente. É um jogo de honra que implanta a dúvida sobre o que pode ser considerado lealdade em face das amarras políticas, detentora de tentáculos que orquestram a vida das pessoas que nela se enramam.

Mark Felt estreou nos cinemas brasileiros na última quinta-feira, 26 de outubro. Assista ao trailer no link abaixo:

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