Cinema e Séries

Medos antigos, terror moderno em A Freira

Está chegando aos cinemas, nesta quinta, o mais novo título de terror que integra a franquia de filmes que compõem o universo cinematográfico de Invocação do Mal (The Conjuring, 2013). A Freira (The Nun,2018) é um spin-off da bizarra entidade demoníaca vista em Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2, 2016), que à época causou grande impacto e repercussão no mundo pop.

Uma das principais mentes criativas por trás deste sucesso é o diretor e produtor James Wan, que não só criou a imagem do referido vilão mas também dirigiu Invocação do Mal, atuou como roteirista e produtor executivo nos demais longas, inclusive, escreveu e produziu a bem sucedida série Jogos Mortais (Saw), na década passada. Bagagem não falta no histórico de Wan.

A Freira, que tem direção de Corin Hardy (de A Maldição da Floresta), roteiro de Gary Dauberman (de It: A coisa) e do já mencionado James Wan, narra a jornada do padre Burke (Demián Bichir) e da irmã Irene (Taissa Farmiga) que são enviados pelo Vaticano à Romênia, para investigar o suicídio de uma freira num isolado e remoto convento. A dupla une-se ao amigável Frenchie (Jonas Bloquet), morador local que os ajuda ao longo da investigação.

Desde as cenas iniciais, o longa já define seu tom obscuro, gótico e intenso. O diretor Corin Hardy imprime à película um passo médio/rápido, onde nada demora muito a acontecer. O terror mora em cada esquina, em cada sombra e também em plena luz do dia. Essa estratégia de narrativa quebra o clichê dos sustos previsíveis. A cinematografia remove as cores vibrantes da tela, a ambientação é pesada e cinza.

A opção de remover tons vibrantes dá o tom necessário para o medo florescer. O diretor utiliza-se de muito jogo de câmera, fazendo esta rodear o personagem em momentos desesperadores, como se o mesmo procurasse a entidade demoníaca junto com o público. Tomadas aéreas e rotatórias em 360 graus são uma eficiente escolha que contribuem com o pavor vivenciado pelos personagens e, de quebra, pelo espectador.

A trama acontece no ano de 1952 – pós-guerra – e 90% da narrativa acontece dentro do gótico, macabro e melancólico castelo que posteriormente fora convertido em um convento. O roteiro, escrito pelos citados acima, faz um excelente trabalho em proporcionar uma história de fundo plausível, porém não extremamente detalhada para a figura da freira. O grande triunfo deste, é encaixar a trama de forma perfeita na linha do tempo de Invocação do Mal.

É notável também, que a cada filme que é lançado, os produtores aprendem mais com os erros. Apesar de títulos muito bem-sucedidos em bilheteria, é evidente a busca pelo aperfeiçoamento; o roteiro intenso atrelado ao castelo gótico cria a ambientação perfeita para invocar no frequentador de cinema sentimentos de desolamento, melancolia e temores cultivados em nossas cabeças durante a infância. Medos infantis (leia-se vultos, sons aleatórios, escuridão) e a forte presença do mal pregado no Catolicismo são ingredientes assertivos para causar pavor e desespero em quem assiste. Ambos serão vivenciados em abundancia no título objeto desta análise.

Claro que tal mensagem não poderia ser melhor transmitida sem um elenco cuja atuação seja a mais crível possível. Taissa Farmiga (irmã de Vera Farmiga – estrela em Invocação do Mal 1 e 2) vive a Irmã Irene, uma noviça que é escolhida pelo Vaticano para unir-se ao Padre Burke (Demián Bichir) na busca por respostas acerca do suicídio de uma das freiras do convento. A dupla possui uma química convincente e carisma suficiente para despertar a torcida da plateia pela sobrevivência deles. Os dois atores soam naturais e espontâneos em todas as cenas. O medo que exalam é tão real quanto o que sentimos quando ouvimos um barulho em nossa casa, tarde da noite.

Integrando o elenco, Jonas Bloquet dá vida ao Frenchie. Morador da vila próxima ao castelo, o personagem funciona como alívio cômico na película. Apesar do papel coadjuvante, também é capaz de cativar a plateia e em momento algum faz uso de falas forçadas ou piadas toscas. É como se a própria persona do ator fosse descontraída por si só.

Por último, mas não menos importante, Bonnie Aarons é a atriz que dá vida a Valak, nome da entidade demoníaca que se apresenta como uma freira. Dona de uma beleza peculiar, a atriz sempre desempenhou pequenos papéis em filmes de terror e, de acordo com as biografias disponíveis online, fora vítima de bastante discriminação, onde o nariz e o formato do seu rosto eram apontados negativamente. Apesar de sua presença ser sutil e menos explícita do que os outros personagens, a atriz desempenha a freira com maestria.

Envelopando todo este conto macabro, somos brindados com a belíssima trilha sonora do compositor Abel Korzeniowski. A música mistura elementos de canto gregoriano, com orquestra e muita percussão. O músico utiliza-se muito de um coral de tenores que mantém o tom extremamente grave, aliado a percussões que chacoalham, batem e caem, provocando sensações sonoras inquietantes. Há ainda uma voz distorcida e rouca que surge sempre que a freira demoníaca entra em quadro.

Baseado em todo exposto, é possível concluir que ‘A Freira’ tem tudo para ser o filme de terror mais celebrado de 2018. É inteligente e bem produzido. Alcança o objetivo de apavorar a plateia e está sendo exibido em diversos formatos desde DOLBY ATMOS até a gloriosa tecnologia IMAX. O grande triunfo de James Wan & Cia é fazer um filme de terror, que já é naturalmente discriminado, ser exibido em tão alta escala e arrastar multidões aos cinemas, como vem fazendo há quase duas décadas.

Crítica escrita por Thiago Schumacher e revisada por Erica Oliveira

 

A Freira estreia nesta quinta-feira, 6 de setembro e certamente lotará salas durante todo o feriado. Confira no link abaixo o trailer:

 

 

 

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