Cinema e Séries

MILLENIUM: A Garota na Teia de Aranha – por que assistir?

[Atenção! Pode conter spoilers – ou não]

Intrigante, inovador, perspicaz. Contrariando a maioria da crítica geral em torno desse longa, o que se pode notar é, de cara, um filme diferente da expectativa com relação ao contexto que o engloba. A história de uma garota que foge dos abusos sexuais de um pedófilo absurdamente agressivo é recheada de tentativas frustrantes de se esquecer o trauma por ter fugido e deixado a irmã que optou por esses abusos, amando demais o pai agressor. Tudo isso num clima frio e acinzentado de Estocolmo, na Suécia, onde ocorre a narrativa; com iluminação e fotografia que evidenciam o cenário misterioso que a trama busca apresentar.

A Série Millenium segue uma narrativa que acompanha os livros desta, escritos pelos suecos Stieg Larsson (3 volumes) e David Lagercrantz (2 volumes). A temática da violência sexual contra mulheres, que norteia o conteúdo dos materiais, se dá pela situação fatídica de que o jornalista Larsson, testemunhou, aos 15 anos, o estupro coletivo de uma jovem. Em homenagem à garota, nomeou sua personagem principal como Lisbeth, por não se perdoar em não ter ajudado à Lisbeth real.

Num contexto amplo, Lisbeth Salander (Claire Foy) fica conhecida como uma anti-heroína, que pune homens agressores, misóginos, que atacam mulheres covardemente. Apesar da fama repentina, trazida por matérias de um periódico, sob matérias do jornalista Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason), sua vida segue sem maiores emoções além dessa postura punitiva aos “machões”, às escondidas. De repente, Lisbeth é contratada a fim de recuperar um programa de controle bélico, chamado Firefall, que dá ao usuário controle a nível desastroso. O programa foi criado para o governo dos Estados Unidos, mas ao perceber o quanto é perigoso, Frans Balner (Stephen Merchant), autor do perigoso dispositivo, deseja retomar e destruir o projeto e é aí que entra a habilidosa guerreira. Porém, outro grupo, os Aranhas, sob liderança de Camilla Salander (Sylvia Hoeks) irmã gêmea de Lisbeth, que carrega em si um ódio mortal por sua irmã. Segundo Camilla, Lisbeth não voltou para resgatá-la da escolha que a própria fez, em preferir ficar com o pai pedófilo. Com apoio de Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason), Ed Needham (Lakeith Stanfield) e Plague (Cameron Britton), a ação e o espetáculo mais enérgico ganham peso e enriquecem o movimento da produção.

Em linhas gerais, o enredo é rico e intrigante, provocativo e surpreende com fatos inesperados em vários momentos, com situações ricas em estímulo do pensamento lógico e que suscita as emoções de um conto tão dramático. Ação, adrenalina, mistério, reflexão – um caldeirão de bons reflexos cinéfilos, sob direção do talentoso Fede Alvarez.

Do ponto de vista do Design como um todo, o longa também não deixa a desejar. Quem gosta de boa iluminação, fotografia alinhada e robusta, bem como paleta coerente, o projeto atende bem às expectativas. Pedro Luque dá um show na direção de fotografia, com técnicas de caminho da luz, respeito e aplicabilidade de regra dos terços, enquadramento arrojado e leveza em apresentar esse peso de conteúdo, explorando closes firmes e recheados de emoção e diversos momentos, o que fomenta o peso dramático ao filme, com iluminação igualmente alinhada a todo o discurso que se propõe. A dicção dos atores, bem como a entonação e equilíbrio de áudio (entre conversação e barulhos periféricos, por exemplo,) estão aceitáveis e inteligíveis.

O Design geral respeita o conceito de mistério e corrobora para que o ar dramático assuma o fio lógico do longa, com paleta direcionada a um ecossistema pautado em cores e tons góticos, fechados. Ideal para apresentar e defender a proposta de um enredo onde uma jovem hacker profissional e ágil, de visual soturno e semblante firme, luta pra ver homens inclinados ao mal, pagarem por suas atrocidades.

 

E é isso. Graça, paz, um copo de suco e pipoca.

 

Clique aqui para comentar ( )