Cinema e Séries

O melhor acerto da DC dos últimos tempos: o Coringa de Phoenix

Desde que Heath Ledger entregou ao cinema a sua versão do Coringa no inesquecível Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), é certo que havia se estabelecido, a partir de então, um patamar de excelência para qualquer ator que detivesse a missão de emprestar a face para o inimigo do homem-morcego. Jared Leto recebeu a amargura do público com a sua interpretação pífia no Esquadrão Suicida (2016), filme incontestavelmente salvo pela simpatia de Margot Robbie com sua Arlequina. Agora, recheado de expectativa e já arrancando urros de público e crítica, Joaquin Phoenix entra em cena para fazer valer cada fio da herança dos oscarizados Ledger e Jack Nicholson.

A autonomia do protagonista em relação ao universo estendido da DC e a não-vinculação específica a qualquer HQ do personagem abriram um imenso espaço para que a equipe dirigida por Todd Philips (Cães de Guerra) pudesse firmar as próprias bases cinematográficas do longa. A aposta – arriscada, diga-se – resultou em uma obra capaz de definir um novo trunfo para a DC. Para os mais familiarizados, referências e homenagens não faltarão.

A ambientação do longa se passa em uma Gotham cinzenta, desprovida de atenção do Poder Público e solo fértil para infestações de ratos e manifestações sociais. Em meio ao cenário desolador, Arhur Fleck tenta sobreviver com seu emprego de palhaço e cuida de sua mãe, ao mesmo tempo em que frequenta terapia para lidar com seus distúrbios mentais. O primeiro ato da trama soa como um triste filme de arte, demonstrando de inúmeras maneiras como Fleck é sujeito passivo do abandono, da trapaça e da maldade humana.

O caos social e a degradação humana são ingredientes que elevam a pressão do palhaço sobre sua vida e suas perspectivas. As frustrações múltiplas culminam na explosão prevista. Não há gatilho definido, este já fora puxado desde que Fleck entrou no mundo. Do ponto de vista científico, Coringa é um catalisador de teorias sociais sobre minorias marginalizadas; uma amostra dos conceitos históricos que analisam a origem da anarquia e um exemplo prático de como a teoria criminológica das janelas quebradas (da greve dos lixeiros ao terror) e a autotutela operam na sociedade. Esse diálogo com o real é quase um aviso aos governantes.

Por todo esse conjunto, é forçoso o encaixe do Coringa como filme de super-herói; tampouco é possível as comparações com o restante do atual universo da DC. Se muito, parece um parente próximo de V de Vingança (2006) e um completo desconhecido no meio da Mulher Maravilha, Liga da Justiça ou Aquaman. O filme encontra-se fora da curva contemporânea, não há efeitos especiais, criaturas extraordinárias, máquinas incríveis ou soluções mágicas. Em vez disso, tragédia familiar, sonhos estraçalhados, doenças incuráveis, tristeza, pobreza e fracasso, muito fracasso. O diálogo com o espectador maduro admite voz para atos de extrema violência. A contemplação da tragédia divide cena com a rudeza; depois das ações inflamantes, reações explosivas e público incendiado.

Muito da sensação de desolação que o longa é capaz de transmitir se deve ao excelente trabalho de trilha sonora. A finlandesa Hildur Guðnadóttir (A Chegada) sabe usar os tons graves a favor do roteiro. Salpicando a trilha, o toque de teatralidade consegue exemplificar a imensidão da tragédia que o filme retrata. O melodramático e o intenso também são elementos dessa trilha, passível de futuras premiações. Em alinho, mixagem de som digna de Nolan.

A qualidade técnica de Coringa realmente comunga com o prestígio que O Cavaleiro das Trevas amealhou na década passada. Até hoje considerado injustiçado por não ter levado o Oscar de Melhor Filme, o Batman de Nolan é um parâmetro rigoroso de qualidade cinematográfica, mas é fato que o longa estrelado por Joaquin Phoenix está à altura de poder ser considerado como o outro lado das trevas.

O primoroso trabalho da decoração de set desnorteia o público sobre o marco cronológico do longa. A partir da introdução de personagens no meio do trama, fica difícil identificar em qual período do Século XX Arthur Fleck vivia. Dados do filme indicam que o início dos anos 80 compõe o cenário de vida do personagem. Roupas atemporais e móveis clássicos são os responsáveis por essa incerteza.

Afora isso, palmas para a fotografia. O mais triste de Gotham ganha vida com a precária iluminação dos ambientes e a sensação de claustrofobia mental de Fleck é vista com primor no abarrotado consultório médico, na pequena mesa de maquiagem, no sapato apertado do figurino de palhaço e no nanico apartamento precário que divide com sua mãe. Não há frescor em Gotham e isso por si só já ambienta perfeitamente a confusão mental do futuro palhaço do crime.

Entrementes, cenário nenhum surtiria efeito sem a profundidade de atuação que o personagem principal exige. O porto-riquenho Joaquin Phoenix está a um passo da quarta indicação ao Oscar (sucedendo Gladiador, Johnny & June e O Mestre) e a chance de vitória é merecidamente imensa. 24 quilos mais magro para o papel, Phoenix demonstra fluidez corporal para a teatralidade que a loucura de Arthur Fleck pleiteia. Os movimentos de pernas, braços se cruzando e ombros desmontados chamam a atenção. O brilho paranoico do olhar e a tristeza sem fim também vista nos olhos do ator sinalizam as sucessivas portas fechadas que o Coringa encontra em seu caminho até que ele parte para o arrombamento. Mas nada ganha mais destaque do que a risada sem alegria, e doentia como nunca, desse ator. É inegável que estamos falando do papel de uma vida. Heath Ledger pode, finalmente, descansar em paz, seu Coringa está em boas mãos.

Concluindo que palavras nunca serão suficientes para conceituar tamanha obra-prima cinematográfica, e chamando atenção para a cautela que se exige sobre um filme para adultos que não deve ser romantizado ou cultuado na prática, temos um Coringa que exige ser visto. Sendo prismático, cada um pode oferecer a sua visão sobre as lições e as justificativas, e todas elas ainda não verbalizam toda a potência dessa obra.

Coringa estreia nesta quinta-feira, 3 de outubro, em todos os cinemas brasileiros. Confira os trailers nos links a seguir:

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