Comportamento

Simbora sair da Zona de Conforto e entrar na Zona de Ansiedade

Disruptivo, inovador, “fora da caixinha” e outras máximas tem norteado a atualidade. Ao que parece, isso não tem sido tão positivo assim

Se você usa redes sociais para algo mais que postar foto de comida e do seu dia perfeito, irá perceber que no mercado estamos “entupidos” de bullshit dos mais variados tipos.

Todos tem a estratégia perfeita, a formula lacradora e o segredo que vai ser revelado para você por um valor simbólico à ser recuperado assim que colocar em prática.

Além destes pontos, o sucesso é constantemente resignificado, a dor e o esforço são postos como empecilho ou desculpa de quem não tem coragem de superar os próprios limites e ser ousado o suficiente.

Esse boom de fórmulas inovadoras – que já abordei em outros artigos – se inicia em 1936 com o advento da auto ajuda com o lançamento do “clássico” Como fazer amigos e influenciar pessoas Dale Carnegie. Curiosamente, ao que parece ele não conseguiu fazer muitos amigos e influenciar pessoas, dado que no seu leito de morte estava só, endividado e seus filhos distantes.

De 36 para cá, o mercado se desenvolveu e com ele seus autores e promessas. Simplificando relações e sentimentos e, em um movimento mais recente, psicologizando fórmulas para dar mais credibilidade e tornar inquestionáveis.

Esse movimento progrediu e gerou mercados que usaram o boom da auto ajuda como grande ferramenta de venda. Sejam bem vindos as pirâmides.

Aqui, qualquer pessoa pode ser gerente de si mesmo, dona do seu futuro e capaz de ser patrão de si mesmo. O segredo é fazer com que outras pessoas abaixo dela acreditem no mesmo e façam outras pessoas acreditarem nelas mesmas, mas segundo os fundadores e seguidores, isso não é uma pirâmide, é uma oportunidade de transformar sua vida.

Damos um salto um pouco maior na história, afinal ela se repete na trajetoria que queremos traçar. Metodologias ágeis e dinâmicas para pessoas que tem que produzir mais, mais rápido e de forma mais “cria-ativa”.

As palestras motivacionais que movimentaram milhões, agora dão espaço ao mesmo que concorrem com os treinamentos disruptivos.

A questão era se sentir motivado, feliz. Agora é se sentir motivado, feliz, bonito, produtivo, criativo, feliz de novo e com todos os filtros possíveis. Nesse as aspecto é fácil! TEMOS O INSTAGRAM.

Imagine comigo:

Você é contratado por uma empresa “inovadora” onde lhe é apresentado um teste. “Você é verde”.

Vermelhos são os líderes; amarelos, os criativos; verdes, os criadores de um clima bom; e azuis, os dóceis.

Pela manhã, no dia seguinte você tem que escolher um emoticon para fixar em um painel localizado no centro do escritório que é Open Office (sem salas) para expressar seu estado de ânimo, fazendo o mesmo quando sair.

Acontece que ele nem sempre é sincero e precisa do emprego. Então, o emoticon mais utilizado é o feliz. Afinal, aquela boa impressão é necessária, não é?

Ah! O escritório tinha salas de descanso perfeitas com yoga, massagem, aquele “fifinha” para relaxar com os “brothers do trabalho”. Também há mindfullness, algumas dinâmicas para perder a inibição e conviver melhor e mais produtivo. Além, logicamente de práticas de team building em finais de semana.

Na rotina de trabalho, além das reuniões de brainstorming em pé, você tem um mentor que dentro da teoria psicológica do eneagrama da personalidade determinou um número para você, 2.

Logicamente que todas essas rotinas são mapeadas pela direção da empresa para melhorar os resultados.

Legal, não é?

Escritório da Google?—?Canadá

Não tanto! 
Acompanho muitos profissionais e recebo muitos relatos de ambientes como esse, com todas essas ferramentas e ambientes. O que temos é pessoas que não conseguem descrever o que sentem, como sentem e o que querem realmente.

As novas culturas empresariais tentam criar um ambiente mais “amigável” que tem gerado maior controle de seus times. Em níveis parecidos ao que descrevi, para maior e menor intensidade, as empresas se modificam, com elas as pessoas.

Alguns dos assuntos que sou mais questionado são:

  • Como posso ser mais produtivo?
  • Como posso deixar de procrastinar?
  • Como perder o medo e arriscar?
  • Como posso ser mais feliz e fazer o que amo?

Junto com essas e outras perguntas, estão pressões para ser o ideal, estar onde o outro estar, ter o que o outro tem, ser o que eu queria ou o que esperam de mim e boas doses de medicamentos, bebidas e diversas compulsões.

A justificativa? As melhores possíveis. Em resumo, Ser melhor.

Antes era preciso saber fazer um trabalho e desempenhar uma função durante oito horas por dia. Agora se procuram características pessoais, competências ligadas à personalidade. Aqui surgem a liderança, criatividade, empreendedorismo e outras questões importantes que são transformadas em sentimentos, focos. É nisso que se encontra o perigo.

A inovação nas mais diversas áreas, junto à velocidade e a plasticidade das relações traz consigo uma sobrecarga que é dosada pela quantidade de medicamentos consumidos.

Eu trabalho mais, produzo mais, desde que sob uma boa dose de motivação Piracetam, Ritalina, Rivoltril! Criamos aqui uma cultura corporativa forte, onde os elementos emocionais e íntimos com uma boa dose de apelos à paixão transformam as relações.

Esse pensamento forçado e doentio é criticado por diversos pesquisadores que ironicamente estão enquadrados nas prateleiras literárias como AUTO AJUDA. Vale conferir:

  • Sorria ou Morra, de Barbara Ehrenreich;
  • A Indústria da Felicidade, de William Davies;
  • A Sutíl Arte de Ligar o F*da-se, de Mark Manson.

… mas, e aí, Tio? Então, todas essas metodologias e propostas são prejudiciais e eu devo parar de usar?

O pensamento hipermotivante elimina qualquer possibilidade de crítica e desloca a culpa e a dúvida para o indivíduo e não para a estrutura onde ele atua. Nisso, geramos visões do eu empreendedor, do super herói que tudo pode com a autogestão e que, no limite, é o único responsável pelos êxitos ou pelos fracassos.

Então, meu pequeno Padawan, a questão aqui não é a fórmula, mas sua dosagem.

Se você acompanha meu conteúdo, já ouviu o que vou ressaltar aqui. A VIDA É O PACOTE COMPLETO! Não há como ser produtivo, sem uma dose de procrastinação. Aqui precisamos equilibrar a rotina de produção com momentos que gerem prazer, que possam equilibrar a medida de esforço dedicada.

Quando falamos de medo, não há como não tê-lo! Tentar isso é no mínimo imbecil. Ele dosa nossa ousadia, nos impõe limites – que são importantes – e nos possibilitam perceber o que podemos fazer, onde estamos e o que estamos dispostos a arriscar. “Ah! Mas quando ele nos impede de seguir…” Pare! Precisamos parar de romantizar os extremos e aprender a conviver com eles. Vivenciar sentimentos e respeitá-los como se fossem alguém. Em caso de não conseguirmos lidar com um deles, vale buscar orientação de um profissional.

As relações são cada vez mais plásticas, descartáveis. Isso tem se estendido para o trabalho, onde a regulamentação vigente é o bem estar do outro e para isso “faço tudo”. Mobilidade e flexibilidade tão presentes no mercado que se estendem a como nos percebemos e ao que queremos para nós.

Pense e Pese isso. Vale a pena se debruçar e refletir sobre essa temática e buscar formas de JUNTOS melhorarmos esse quadro em nossos espaços de convivência.

Clique aqui para comentar ( )