Cinema e Séries

Jogador Número 1 | universo geek como escape de uma sociedade involuída

O ano é 2045. Nele, cidades decadentes onde vive uma população pobre desencantada com a vida (muito parecido com Blade Runner) abre mão de tudo em nome de um pequeno óculos capaz de projetar o usuário em qualquer dimensão online utópica desejada. A ideia veio a público com a obra literária do escritor então estreante Ernest Cline, lançada em 2011. De tão inusitada, caiu nas graças de Steven Spielberg, diretor e produtor do longa Jogador Número 1 (Ready Player One), que chega ao Brasil nesta quinta-feira, 29 de março com a promessa de passar a fazer parte do privilegiado rol de filmes que marcam a cultura pop pela eternidade.

Wade Watts (Tie Sheridan, o novo Scott de X-Men), nome dado na intenção de homenagear Bruce Banner e Peter Parker, é um garoto órfão que vive na casa de contêineres empilhados aos cuidados da tia. A vida desencantada é facilmente deixada de lado quando Wade se torna Parzival, o avatar de cabelos brancos que passa horas no Oasis, a realidade virtual criada por James Halliday (Mark Rilance, oscarizado e irreconhecível no papel com ares de Steve Jobs do futuro).

O tempo gasto na RV se dá em virtude do falecimento de Halliday, que ao partir, deixou uma série de easter eggs no jogo que tornaria o jogador que as encontrasse o dono da empresa, ameaçada pela rival IOI (Innovatine Online Industries), que financia um exército de jogadores na esperança de botar as mãos na Oásis e pôr fim à concorrência. Wade, ao lado dos jogadores Art3mis (Olivia Cook), Aech (Lena Waithe), Sho (Philip Zhao) e Daito (Win Morisaki), compõe o grupo de fãs de Halliday que lutam por achar os segredos para evitar a ruína da Oásis. Entender a biografia do fundador ajudará os amigos a buscar as chaves e isso desperta a atenção de Sorrento (Bem Mendelsohn), o CEO da IOI.

Ainda que detentor de uma premissa bastante longa para ser facilmente compreendida pela plateia de início, o longa sabe embalar o público ao brincar com diversas referências da cultura pop e linguagem gamer o tempo todo. A primeira cena no Oásis apresenta uma paleta de passatempos possíveis dentro do jogo e apenas com essa cena é possível extrair uma centena de easter eggs, a palavra-chave do filme. King Kong, Godzilla, Speede Racer, Batman, 2001: Uma Odisseia no Espaço, Mad Max, O Iluminado, Akira, Chuck e Robocop são apenas alguns itens da extensa e nostálgica lista que vai mexer com qualquer nerd de respeito. As referências também se estendem ao universo musical. O diretor Steven Spielberg foi categórico ao barrar qualquer alusão aos seus próprios filmes (ET, A.I., Jurassic Park, Goonies, Tubarão, etc), mas a equipe de pós-produção conseguiu encaixar uma breve menção à De Volta Para o Futuro escondida dele.

As 2 horas e 20 minutos de projeção se dividem entre a vida real dos jogadores e o tempo em que passam como avatares dentro do Oásis. O filme poderia ter sido encurtado para evitar desgaste, uma vez que apresenta detalhes em excesso que podem prejudicar o ritmo de absorção da trama. De toda forma, o visual deslumbrante colabora com a passagem rápida do tempo. Enquanto os jogadores se deslocam entre guerras, corridas e desafios de dança, o público experimenta uma vida até então inimaginável e desejada por muitos. O longa consegue, ainda, alfinetar o uso excessivo das tecnologias à disposição como uma forma de barrar o contato real, que é um tabu para a história.

Graças ao visual espetacular, a sessão 3D se torna uma boa alternativa até para os mais relutantes. Salas tecnológicas também se mostram como a melhor opção para desfrutar o longa, já que sorround não falta, assim como mixagem e edição de som alinhadas em um sci-fi que tem tudo para reinar dentro do universo geek. O Design de Produção é uma categoria tão bem elaborada na presente obra que não merecia nada menos do que uma indicação ao Oscar do próximo ano pelo resultado visto em tela. O filme apresenta um projeto ambicioso e certamente entrará para o currículo de Spielberg como um de seus projetos mais memoráveis. Há tempos o público nerd rogava por um longa que fosse capaz de reunir toda a imensidão criativa de jogos, filmes, quadrinhos, músicas e personagens definidores de uma geração (haja direito autoral). Esse momento chegou.

Jogador Número 1 soube reunir de forma mágica a realidade de milhares de pessoas mundo afora e demonstra que a expansão da tecnologia é ópio em uma sociedade moralmente esmigalhada. O culto de adoração em torno do criador James Halliday brinca com o amor e lealdade dos fandoms de Steve Jobs, George Lucas, J.K. Rowling, Stan Lee, Douglas Adams e afins, já que os jogadores que desejam descobrir as chaves escondidas pelo criador na RV precisam demonstrar extenso conhecimento sobre a vida e a obra do mesmo.

O longa foi feito para refletir uma geração de amantes da cultura pop que dedicam suas vidas a isso, e consegue esse feito. É impossível não haver esse tipo de reconhecimento, por mínimo que seja, entre jogadores, leitores e cinéfilos; sendo um filme quase obrigatório para esses grupos.

Jogador Número 1 estreia nesta quinta-feira, 29 de março. Confira o trailer a seguir:

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