Prepare-se para mergulhar no universo de uma das mentes mais brilhantes e influentes do design brasileiro contemporâneo. Vanessa Queiroz, carinhosamente conhecida como Van, não é apenas uma designer; ela é uma força motriz, uma empreendedora incansável e uma voz essencial na redefinição do que significa criar em um mundo em constante transformação.
Cofundadora e diretora criativa na Colletivo, que há mais de duas décadas é snônimo de inovação e excelência, Van construiu um império criativo baseado na resiliência e na paixão. Mas, para além dos projetos premiados para gigantes como Ambev, Netflix e Itaú, ela é a personificação da autenticidade. Líder que valoriza a mulher no mercado, cozinheira apaixonada e cuidadora de plantas, Van nos prova que o sucesso se mede pela capacidade de manter a essência humana em cada traço e cada conexão.
Nesta conversa, ela compartilha suas reflexões sobre o design como ferramenta política e a importância de criar com verdade.
Van, na sua leitura de mercado, quais são hoje os principais vetores comportamentais que estão redesenhando o papel do design?
Eu acredito que a gente teve uma mudança muito radical nos últimos anos, né, não só com a globalização, como a leitura do marketing sobre o que é o target quando você fala de design. Antigamente você dividia muito bem as classes A, B, C e D, você falava de comportamento muito ligado à classe social da pessoa e hoje você vê que existem muitas transversais que mudam essa percepção do tipo: a pessoa pode ter um poder aquisitivo menor, mas essa pessoa pode consumir coisas caras. Um público que normalmente era nichado num lugar do não consumo ou do não acesso hoje tem acesso a tudo e isso tá moldando e mudando o comportamento, inclusive político de modo a fazer com que a gente tenha uma divisão global entre direita e esquerda, formas de consumo, o que se acredita que era classe média e o que não é mais e uma alta disfunção da distribuição de renda, principalmente no Brasil. E isso obviamente implica no design porque design é uma ferramenta política, é uma ferramenta social e é uma ferramenta de consumo em muitas vezes.
Falando de design gráfico. Quando você tá falando de qualquer outro tipo de design, de interiores, de móveis etc, isso muda um pouco também, mas não muda tanto porque eu acho que o consumo através de redes sociais, de imagens, de filmes, de streamings, a mudança desse consumo.
Antigamente você tinha, nos anos 80, cinco canais de TV, rádio e você tinha um consumo muito dirigido pra o que esses canais queriam que você consumisse. Hoje isso não existe mais, hoje é pulverizado. Então eu acho que isso impacta demais, principalmente no repertório das pessoas, que faz com que elas queiram coisas que normalmente elas não tinham nem acesso na vida delas.
O design contemporâneo está mais orientado à cultura ou à performance de negócio?
Sim, completamente. O design, está hoje orientado, quando um escritório de design ou um designer é contratado por uma empresa, ele tem que saber de negócio. Ele tem que entender de faturamento, ele tem que entender quem ele está querendo atingir, qual resultado aquilo vai implicar para a empresa, por que aquele resultado vai ser importante através da venda do produto, do serviço ou do posicionamento daquela empresa.
Porém, o mais importante a se dizer em relação a isso, é que tem que ser muito claro, examinado de maneira muito clara, esses dados precisam ser analisados pelo designer antes do projeto começar, coisa que muitas vezes não acontece. Então você tem um objetivo a atingir através daquele rótulo que está fazendo e muitas vezes não sabe onde quer chegar e nem tem muitas ferramentas para mensurar isso. Se você for um parceiro, muitas vezes você entrega o projeto, vai para outro e você não sabe o que aconteceu, e isso é algo que você deveria saber. Você só sabe quando explode ou quando dá muito certo. Mas às vezes nem se esse ‘certo’ foi relevante para mexer o número daquela empresa.É fato que hoje a gente desenha para marcas e para empresas, sim, para obter resultados que, no final do dia, a gente está falando de lucro, que é o que motiva essas empresas a existirem.
Como você enxerga a evolução do design de um ativo estético para um ativo estratégico dentro das organizações?
Eu acredito que o papel do designer nunca foi apenas estético, principalmente quando estamos falando sobre solução de problemas. O design sempre funcionou como um intermediador, uma ferramenta voltada para resolver questões práticas. Quando pensamos, por exemplo, no design de uma cadeira, o objetivo inicial, antes da Revolução Industrial, era simplesmente permitir que alguém se sentasse.
Com o tempo, surgiu a camada estética, que tornou aquele objeto mais interessante visualmente. Hoje, a estética é muitas vezes o primeiro ponto de atração, porque ela cria uma conexão imediata com o repertório do consumidor. É ela que desperta curiosidade, interesse e desejo de consumo, muitas vezes por meio de atributos intangíveis.
Ao mesmo tempo, nos últimos anos, o aprofundamento do conhecimento sobre design fez com que mais pessoas começassem a compreender melhor essa disciplina, embora eu ainda ache que estamos longe do ideal. Essa é uma crítica que faço frequentemente às áreas de marketing: profissionais que trabalham com branding e comunicação precisam entender minimamente de design para construir um briefing consistente. Porque, quando isso é bem estruturado, o projeto consegue atingir resultados muito mais assertivos, utilizando elementos estéticos de forma estratégica.
Isso permite, inclusive, que o cliente saia do clichê e perceba que aquilo que está sendo desenvolvido realmente pode impactar o consumidor. Seja para experimentar um produto, acessar uma marca ou simplesmente despertar interesse por algo novo, existe uma série de componentes estéticos que ajudam a criar essa conexão.
E aí o design deixa de ser visto apenas como “algo bonito” quando passa a ser analisado pela ótica do comportamento. O que fez aquela pessoa parar? O que chamou a atenção? O que levou alguém a pensar: “quero experimentar isso”, “quero acessar isso”, “gostei disso”?
Esse movimento também tem relação com a ampliação do repertório das pessoas, com o acesso a diferentes referências culturais e até com as transformações sociais e econômicas ao longo do tempo. Por isso, eu considero fundamental entender que design não é apenas imagem. A imagem é um dos atributos utilizados dentro de uma metodologia muito maior.
Quando você desenvolve um sistema de identidade visual, um rótulo ou qualquer outro projeto, é necessário compreender profundamente o público, a mensagem que a marca deseja transmitir e quais atributos podem ser usados para reforçar essa percepção. No final, tudo isso se transforma em uma imagem, mas uma imagem construída estrategicamente para despertar curiosidade, gerar identificação ou fortalecer atributos de marca.
O consumidor atual está mais exigente ou mais volátil? Como isso impacta as decisões criativas?
Eu não acredito que o consumidor esteja mais volátil, mas, sim, mais exigente. Hoje existe uma oferta muito maior de produtos e serviços no mercado. Antigamente, as opções eram mais limitadas, muito mais nichadas, e o consumidor tinha menos possibilidades de comparação e experimentação.
Com o aumento dessa oferta, ele passou a experimentar mais, comparar mais e, principalmente, ganhou voz. As redes sociais transformaram completamente essa relação. Hoje, um consumidor pode se encantar, em um primeiro momento, por uma embalagem maravilhosa ou por uma comunicação extremamente bem construída. Mas, se o produto não entrega qualidade, ele vai expor isso publicamente, vai falar mal da experiência e influenciar outras pessoas. Essa comparação acontece o tempo inteiro no mercado atual.
Por isso, é fundamental que o designer também entenda de negócios. No final, o design precisa entregar resultado. E esse resultado pode aparecer de diferentes formas: no lucro, no aumento de faturamento, no fortalecimento de posicionamento de marca ou na vantagem competitiva frente aos concorrentes. O design deixa de ser apenas uma construção visual e passa a atuar como uma ferramenta estratégica dentro do negócio.
Como o comportamento digital, especialmente a lógica de consumo rápido, influencia a construção de identidades visuais hoje?
Eu diria que a grande mudança não está necessariamente no comportamento digital em si, mas na multiplicidade de plataformas e acessos digitais que existem hoje. O consumidor está presente em muitos lugares ao mesmo tempo, e isso transforma completamente a forma como as marcas precisam se posicionar.
Talvez o ponto mais relevante seja que hoje não existe mais uma marca estática. Antigamente, quando se desenvolvia uma identidade visual, as superfícies de aplicação eram muito mais simples: uma assinatura em um comercial, um anúncio de revista, um outdoor ou uma placa física.
Hoje, estamos falando de inúmeras telas, formatos e experiências. Estamos falando de design em movimento, de marcas que precisam se adaptar dinamicamente aos ambientes digitais e até de design sonoro. Eu sempre uso exemplos muito claros disso: o “tan-tan-tan-tan” da Intel, o “tudum” da Netflix ou até o tradicional “plim-plim” da TV Globo. Esses elementos mostram como uma marca pode ser percebida para além do visual. Hoje, se bem aplicada, essa identidade se espalha por qualquer rede social ou plataforma digital.
Por isso, atualmente trabalhamos muito mais com sistemas de identidade visual do que apenas com marcas isoladas. A identidade precisa prever movimento, adaptação e aplicações em diferentes superfícies e contextos. O consumidor é impactado diariamente por essas marcas, em uma recorrência constante, e elas precisam funcionar de maneira coerente em todos esses pontos de contato.
Ao mesmo tempo em que isso é extremamente interessante, também é muito mais complexo. Construir consistência nesse cenário exige estratégia. Um logo nunca é apenas um logo. O logotipo, entendido como símbolo e tipografia, passa a fazer parte de um ecossistema muito maior, que envolve padronagens, paleta cromática, nuances, recortes, aplicações fotográficas, direção de imagem, motion design e linguagem visual integrada.
E ainda existe muita gente que não compreendeu essa transformação e continua acreditando que branding é apenas desenvolver um logo e começar a aplicar. Hoje não funciona mais assim. É necessário pensar em todos os pontos de contato da marca com seus stakeholders, especialmente o consumidor, para que a experiência seja consistente, reconhecível e estratégica em qualquer ambiente.

Temas como diversidade, inclusão e sustentabilidade deixaram de ser tendência para se tornarem obrigação no design?
Nossa, essa é uma pergunta maravilhosa. Para mim, sim, eu acredito que o design é uma ferramenta política. A partir do momento em que a gente entende o mundo em que vive e estamos falando de um país como o Brasil, marcado por uma desigualdade social enorme e por uma diversidade cultural gigantesca, ignorar isso no desenvolvimento de qualquer projeto de design é, de certa forma, estar cego para o público com quem se está falando.
E eu não digo isso apenas sobre os times que produzem design, mas também sobre as pessoas que recebem esse design. Diversidade, inclusão e a própria realidade social precisam estar contempladas para que um projeto seja efetivo e consiga dialogar verdadeiramente com as pessoas.
Um exemplo muito comum são campanhas internacionais que chegam ao Brasil sem qualquer adaptação cultural. Durante muito tempo, vimos campanhas compostas majoritariamente por pessoas loiras e ruivas representando o consumo de produtos em um país cuja realidade demográfica é completamente diferente. Isso era tratado como padrão de comunicação, como representação aspiracional. Hoje, esse modelo já não faz sentido.
As marcas precisam ser desenhadas de acordo com a realidade de quem consome e de quem recebe aquela mensagem. O público precisa se enxergar ali. Precisa perceber que aquela comunicação conversa com sua vivência, sua cultura e seu cotidiano.
Infelizmente, ainda existem muitas empresas que contratam design, consomem branding e, ao mesmo tempo, rejeitam essa discussão por questões ideológicas, políticas ou de posicionamento institucional. E eu acredito que isso seja um grande erro estratégico e social.
Porque, no fim, a gente não evolui como sociedade (e nem como mercado) se não estiver disposto a contemplar a realidade em toda a sua complexidade. O design tem a capacidade de construir pertencimento, identificação e representação. E quando ele ignora isso, deixa de cumprir parte fundamental do seu papel.
Existe um risco de “apropriação superficial” dessas pautas por parte das marcas?
Existe esse risco, sim. E, muitas vezes, existe também um equívoco muito grande na forma como determinadas oportunidades são interpretadas pelo mercado. Isso é algo que a gente gosta muito de colocar em discussão e, inclusive, em muitos casos dentro do coletivo do nosso escritório, a gente prefere até se recusar a executar determinados projetos.
Porque eu acredito que esse também é um papel do design: entender que, ao solucionar um problema, determinados fatores entram na equação para serem debatidos, e não simplesmente tratados como verdades absolutas. Isso precisa ser discutido entre cliente e designer.
Você não pode simplesmente levantar uma bandeira que aquela marca, na prática, não sustenta. E eu acho que essa distorção acontece muito mais no mercado publicitário do que propriamente no mercado de design. Quando uma empresa se apropria de uma pauta apenas para lançar um produto ou surfar uma tendência, sem que aquilo faça parte da sua cultura ou da sua atuação real, em algum momento isso será questionado pelo público. E não se sustenta.
Como eu disse anteriormente, o consumidor hoje tem repertório, tem acesso à informação e tem voz. Se existe uma desconexão entre discurso e prática, isso aparece rapidamente.
O design trabalha em cima da verdade para construir soluções concretas e consistentes. Não faz sentido desenvolver narrativas, pautas ou posicionamentos apenas por oportunidade, sem que exista uma sustentação real por trás. Porque, no final, o que transforma uma marca em algo relevante e respeitado é justamente a sua reputação. É a recorrência entre aquilo que ela comunica e aquilo que ela entrega.
Quando isso não acontece, eu nem consideraria aquilo como design responsável. Porque responsabilidade, no design, também passa por coerência, transparência e compromisso com a verdade da marca e com as pessoas que ela impacta.
Como equilibrar discurso e prática na construção de narrativas visuais mais autênticas?
Acho que tudo começa dentro de uma verdade sobre o produto ou serviço, algo que normalmente chega para a gente através do briefing. A partir disso, é fundamental desenvolver uma pesquisa consistente, conectada ao público consumidor, para que a gente consiga desenhar uma solução que realmente entregue o resultado esperado pelo cliente ou pelo projeto.
E aí começa um processo que, para mim, é essencial no design: testar, errar, refazer, reconstruir e testar novamente. A repetição dentro do design é fundamental para alcançar um bom resultado. É justamente por isso que eu sou bastante crítico ao uso indiscriminado de algumas ferramentas, como certas aplicações de inteligência artificial, que muitas vezes entregam soluções muito pasteurizadas, baseadas em senso comum e que não necessariamente resolvem o problema ou traduzem a verdade daquela narrativa visual.
Uma solução visual precisa ser experimentada, validada e, muitas vezes, falhar antes de funcionar. O erro faz parte do processo criativo porque ele mostra onde estão os ajustes necessários. E esse processo, na maior parte do tempo, acontece antes de o projeto chegar ao consumidor. Ele acontece dentro do escritório, dentro da equipe que está desenvolvendo o projeto ou até mesmo internamente nas empresas que possuem departamentos de design.
Para mim, é justamente essa insistência, esse exercício constante de refinamento,que aproxima um projeto da melhor entrega possível. E eu digo “melhor entrega possível” porque eu nem sei se acredito, de fato, em perfeição. Eu acredito muito mais na evolução da linguagem.
Essa evolução acontece através de técnica, prototipagem, repertório e validação prática. Você coloca um projeto na rua, observa como ele performa, entende o que funcionou e o que ainda precisa ser ajustado. Muitas vezes o retorno é exatamente esse: “isso funcionou muito bem, mas existem pontos que ainda precisam ser refinados para aproximar mais o projeto da expectativa do consumidor ou do objetivo do cliente”.
Para mim, repetição, treino e dedicação são elementos fundamentais para que um projeto consiga alcançar uma narrativa visual consistente e alinhada ao discurso que deseja transmitir. Claro que, às vezes, a gente acerta de primeira. Mas isso também vem de experiência, repertório e do uso de atributos intangíveis que ajudam a construir significado dentro de uma imagem. Ainda assim, na maior parte das vezes, é o processo de repetição e refinamento que leva o projeto a um resultado mais sólido, mais verdadeiro e mais alinhado estrategicamente.

Qual o impacto real da inteligência artificial no processo criativo hoje: amplificação ou ameaça?
O design tem justamente essa função de servir como ponte entre o que a empresa quer comunicar e aquilo que o consumidor está disposto a ouvir, sentir e perceber. E, muitas vezes, essas duas coisas não estão alinhadas de forma natural. O papel do design é ajustar esse tom de voz, construir essa narrativa visual e transformar a mensagem em algo compreensível, relevante e desejável para quem está do outro lado.
O design trabalha muito com desejo, identificação e aspiração. Ele faz com que a pessoa consiga se enxergar dentro daquela marca, daquele produto ou daquela experiência. E isso não acontece por acaso. Existe um estudo profundo por trás, envolvendo comportamento humano, semiótica, teoria das cores, formas, tipografia e linguagem visual.
Tudo isso, em conjunto, compõe o que realmente é design. Não se trata apenas de “fazer algo bonitinho”. O conceito de beleza é extremamente relativo. O que é bonito para uma pessoa pode não ser para outra. Mas aquilo que é funcional, que comunica corretamente e que atinge o objetivo proposto, isso sim é design de verdade.
No fim, o design é uma ferramenta estratégica de construção de percepção. É ele que ajuda uma marca a encontrar sua voz, desenvolver personalidade e criar consistência na forma como se apresenta para o mundo. E, acima de tudo, acredito que o design precisa partir de uma verdade. Porque é essa verdade que sustenta a narrativa da marca ao longo do tempo e faz com que ela realmente se conecte com as pessoas.
O uso intensivo de ferramentas digitais está gerando uma padronização estética no mercado?
Esse pastiche de expansão da linguagem igual das IAs entrega um posicionamento genérico nas redes e pouco inteligente pelos aspectos comerciais e de posicionamento, porque é sobre cognição. Posicionamento é renúncia, eu acho que o futuro do design no Brasil é muito promissor, a partir do momento que a gente entende essa nossa diversidade e usa isso a nosso favor. A gente tem uma cultura muito rica, a gente tem uma forma de se expressar que é muito única, e o design brasileiro ele é reconhecido lá fora justamente por essa ‘borogodó’, né, por essa ginga que a gente tem na hora de criar.
Então, quanto mais a gente se apropriar da nossa cultura, da nossa verdade, e colocar isso nos nossos projetos, mais a gente vai ser relevante globalmente. O design não é sobre copiar o que está sendo feito lá fora, é sobre entender o que a gente tem aqui dentro e como a gente pode mostrar isso pro mundo de uma forma profissional, ética e, acima de tudo, criativa.
Eu acredito muito no potencial dos novos designers que estão vindo aí, com uma cabeça muito mais aberta para essas questões sociais e ambientais, e que com certeza vão elevar o patamar do design brasileiro nos próximos anos.”
Como o designer pode manter relevância em um cenário cada vez mais automatizado?
Essa pergunta é maravilhosa. E, sinceramente, é uma pergunta que eu me faço há 22 anos: como continuar relevante sem envelhecer criativamente?
Ao longo desse tempo, a gente já atravessou diversas revoluções tecnológicas dentro do design. E, no nosso caso, por sermos um escritório com uma abordagem muito craft, trabalhando fortemente com ilustração, processos manuais e metodologias que não buscam necessariamente uma perfeição matemática, mas sim um apuro estético e emocional, isso acaba criando uma assinatura muito própria.
Existe algo no design brasileiro que eu valorizo muito, que é justamente o improviso perfeito. Aquilo que, muitas vezes, poderia ser entendido como “erro” é exatamente o que dá identidade, personalidade e o famoso borogodó ao design nacional. Essa organicidade vem do repertório cultural que a gente carrega vivendo em um país tão diverso, cheio de contrastes, referências e diferentes formas de olhar o mundo.
E, para mim, quando você coloca tudo isso apenas dentro de uma máquina, existe uma perda inevitável. Você perde alma, essência, emoção e vivência. Então, hoje, eu acredito que continuar relevante também é uma forma de resistência.
No nosso caso, manter um escritório craft por mais de duas décadas acaba sendo um diferencial justamente em um momento em que as imagens estão ficando cada vez mais parecidas, mais padronizadas e, muitas vezes, sem repertório visual ou profundidade cultural.
Hoje o escritório está localizado no centro de São Paulo, e eu gosto de enxergar esse lugar como um microcosmo do Brasil. A convivência com diferentes realidades, pessoas e contextos traz uma humanidade muito forte para dentro dos projetos. E isso inevitavelmente se reflete no que a gente entrega.
Claro que nem sempre conseguimos imprimir isso em todos os trabalhos, porque estamos falando de projetos comerciais, construídos a quatro mãos com os clientes, que também participam diretamente das decisões. Mas em projetos autorais ou em trabalhos com maior liberdade criativa, essa identidade aparece de maneira muito mais evidente.
Então, nesse cenário atual, eu acredito que o designer não pode se afastar das próprias raízes, daquilo que gosta de fazer e daquilo que construiu seu repertório. Também não pode parar de estudar. E, principalmente, precisa entender como utilizar a inteligência artificial de maneira estratégica.
A IA, para mim, deve funcionar como ferramenta, nunca como finalidade. O diferencial está justamente em saber em que momento ela potencializa o processo criativo sem substituir a visão humana, o repertório cultural e a construção sensível de linguagem.
E acho que é exatamente aí que vai estar a separação entre os escritórios e designers que continuarão relevantes e aqueles que apenas produzirão imagens genéricas, tecnicamente corretas, mas sem identidade, sem profundidade e sem relevância sociocultural.
Para fechar: qual tendência está sendo superestimada hoje no mercado de design?
Eu acho que tendência é algo que o designer precisa observar e utilizar, mas que também pode se tornar uma grande armadilha. E isso conversa muito com tudo o que a gente falou ao longo da entrevista: quais ferramentas estamos utilizando para construir linguagem?
Porque, a partir do momento em que todo mundo começa a consumir as mesmas referências, as mesmas plataformas e as mesmas tendências, o resultado naturalmente tende a ficar muito parecido. Eu lembro de uma época em que fiquei completamente obcecado com isso porque todos os projetos que eu via utilizavam praticamente o mesmo tom de azul, com tipografias bold e construções visuais muito semelhantes. E eu pensava: “o que está acontecendo com o mercado para que todo mundo esteja produzindo a mesma coisa?”.
E isso tem muito a ver com ferramentas de pesquisa e algoritmo. Plataformas como o Pinterest, por exemplo, acabam entregando referências muito parecidas para pessoas que buscam as mesmas coisas. O resultado é uma produção visual extremamente homogênea.
Por isso, eu acredito que a melhor maneira de fugir do clichê e do óbvio é justamente investir na pesquisa que acontece antes da linguagem visual. A tendência pode servir como referência, mas ela não pode substituir repertório, estratégia e verdade de marca.
Hoje, por exemplo, estamos vivendo uma retomada muito forte das estéticas dos anos 90 e dos anos 2000, especialmente consumidas pela Geração Z. Você vê isso em videoclipes, capas de disco, editoriais, campanhas e em inúmeras construções visuais. E isso pode ser extremamente interessante — mas também pode virar uma armadilha se não tiver conexão real com o produto, com o serviço ou com a narrativa daquela marca.
Então, para mim, tendência é importante porque o designer não pode parar de se atualizar. Isso é fundamental. O designer precisa estar constantemente olhando para frente, entendendo movimentos culturais, tecnológicos e comportamentais. Hoje, por exemplo, falamos muito sobre futuro por causa da inteligência artificial, e isso inevitavelmente influencia as linguagens visuais que estão sendo produzidas.
Mas o ponto principal é entender como essas tendências dialogam com a pesquisa, com o público e com o contexto daquele projeto específico. O objetivo não é seguir uma estética apenas porque ela está em alta, mas entender se aquele cruzamento entre tendência, repertório e estratégia vai gerar um resultado visual relevante e coerente.
No final, o que buscamos é sempre desenvolver algo que atenda à necessidade real do cliente — seja posicionamento, venda, reconhecimento ou construção de marca.
E eu acho interessante também pensar que a tendência ajuda a localizar culturalmente um projeto dentro de um tempo e espaço. Hoje a gente vive em um momento em que referências de diferentes décadas coexistem o tempo inteiro. Eu costumo brincar que, se um ET descesse na Terra agora, dependendo do lugar em que ele caísse, talvez ele não soubesse dizer se está nos anos 80, nos anos 2000 ou no futuro.
E isso pode ser extremamente interessante, desde que seja usado com consciência, intenção e consistência.
Uma nota final e pessoal do autor:
Ao finalizar esta entrevista, pensei seriamente em revisitar o material, reduzir algumas respostas e tornar a leitura mais dinâmica para você, caro leitor. Mas, depois de reler cada trecho, percebi que isso seria quase um desserviço.
Ao longo dos anos, executei entrevistas, construí pautas, desenvolvi questionamentos e conversei com diferentes profissionais. Ainda assim, a entrevista com a Van foi, sem dúvida, a melhor que já tive a oportunidade de realizar até hoje. Não apenas pela profundidade das respostas, mas pela sensibilidade, honestidade e riqueza de repertório presentes em cada reflexão.
Seria injusto resumir, simplificar ou tentar acelerar uma conversa tão humana, delicada e especial como esta. Algumas narrativas precisam de tempo para acontecer e, principalmente, de espaço para serem sentidas.
Espero que esta breve jornada tenha proporcionado a você uma leitura tão feliz quanto foi, para mim, a experiência de construí-la.
