Ato 1 – O que é “Feito Pipa”?
Será que o Brasil vai ser bem representado no Oscar? Assisti ao filme “Feito Pipa”, produção nacional estrelada por Lázaro Ramos, que está repercutindo em festivais pelo mundo e foi escolhido para representar o Brasil na corrida pelo Oscar. Mas será que ele é bom e tem a mesma força de seus antecessores?
Nessa história íntima e cheia de “I love you”, vamos acompanhar a seguinte trama:
“A relação de um menino de 11 anos chamado Gugu e sua avó Dilma, que lentamente sente o avanço do Alzheimer tomar conta. Destemido, Gugu vive nas proximidades de uma barragem com Dilma. A condição de sua avó se agrava e Gugu, com medo de ter que morar com seu pai homofóbico, tenta esconder de todos o que está acontecendo. Entre as memórias e o esquecimento, o futuro incerto tanto de Gugu quanto de Dilma paira entre os dois.”

Ato 2 – Comentários gerais
Com muito carisma, personalidade forte e identidade própria, “Feito Pipa” e seu protagonista, Gugu (Yuri Gomes), compartilham as mesmas características.
Fugindo de uma história que, mesmo tendo uma base “clichê”, consegue trazer seu tom único e uma mensagem extremamente necessária. O filme aborda a pré-adolescência de um menino gay e nordestino, que não se encaixa totalmente naquele estereótipo bastante reforçado pela indústria. Mas, sim, apresenta uma criança com gostos e personalidade únicos, que não se resume à sua orientação sexual.
E nem a história busca focar somente nisso, mas também na linda relação dele com sua vó, em sua relação com o futebol, com seus amigos e com seu pai, que é preconceituoso.
Entretanto, a riqueza do filme está na construção da relação entre Gugu (Yuri Gomes) e sua vó, Dona Dilma (Teca Pereira). Como ambos encontram um no outro um porto seguro, uma motivação para encarar os desafios da vida, sempre com muito amor, bom humor e nostalgia.
Pois quem foi criado com vó vai ficar rendido a todo momento, principalmente pela cenografia, que lembra a casa de qualquer voinha do Nordeste, cheia de fotos, adereços e plantas. E, claro, pela essência do nordestino da terceira idade, de ir dançar em um barzinho e ouvir músicas antigas. Tudo isso faz você viajar no tempo, mesmo estando no presente.
Além disso, o filme não poderia deixar de falar sobre as dificuldades da vida de uma criança nordestina e de sua família. Mas sem aquela abordagem de seca e pobreza. Aqui, o foco está nas dificuldades da velhice e no Alzheimer, uma doença que impacta milhares de pessoas e é devastadora, pois faz alguém esquecer tudo e todos.
E isso fica ainda mais doloroso quando você entende que Gugu depende totalmente de estar com sua vó para ser feliz e poder ser quem realmente é dentro de casa, sem julgamentos, sem ataques e sem medos.
Ademais, o roteiro utiliza os aspectos da doença para abordar temas delicados que afetam todos os personagens, como a morte de Eliane, mãe de Gugu. E, assim, os problemas vão sendo introduzidos e começam a ser desenvolvidos.
Porém, entramos na parte negativa. “Feito Pipa” é tão gostoso de assistir, mas peca ao introduzir diversas problemáticas que, por conta de seu tempo curto, de uma hora e meia, acabam ficando sem fechamento, sem uma conclusão de fato.
Você termina o filme com aquela sensação de querer mais, porque sente que faltaram algumas coisas. Se tivesse uma duração maior, daria para concluir a problemática entre o pai, Batista (Lázaro Ramos), e Gugu (Yuri Gomes), que é iniciada, assim como a questão do bullying na escola.
E, claro, fica a dúvida: que fim levariam Gugu e Dona Dilma? Eles ficaram juntos? Fugiram mesmo? O que isso causou nos demais personagens?

Ato 3 – Direção
Quem conduziu e deu vida a essa arte do Nordeste foi o produtor, roteirista e diretor Allan Deberton, que já tem experiência no ramo do cinema brasileiro, com obras como “Os Olhos de Arthur” (2004), “Doce de Coco” (2010) e “Pacarrete” (2019). Em “Feito Pipa”, Allan busca explorar uma direção mais intimista e artística, por meio de planos mais próximos e intimistas, uma fotografia que explora a beleza natural do Nordeste e, claro, a arte e a beleza da infância.
Ele explora o lado artístico de Gugu e traz cenas belíssimas, com contrastes de luz e sombra e, claro, muita cor.

Ato 4 – Atuações
Já nas atuações, com esses nomes de peso no elenco, é claro que sairiam performances de alto nível.
Gugu (Yuri Gomes) é um personagem cheio de personalidade e vitalidade, que não baixa a cabeça para nenhum preconceituoso, mas que também tem os medos e as tristezas de qualquer criança, ainda mais sendo LGBT+. Yuri consegue contracenar com grandes atores e entregar momentos tensos, tristes e cômicos com muita facilidade.
Teca Pereira (Dilma) traz uma voinha doce, divertida e acolhedora, mas que, no fundo, guarda marcas do passado que a doença, infelizmente, traz à tona. Tudo isso sem perder a química e a doçura com seu neto.
Por fim, Lázaro Ramos (Batista) é o típico pai preconceituoso, mas que, ainda assim, tem suas camadas, já que ele e Gugu são dois opostos que também se refletem. Batista é preconceituoso em relação à sexualidade e aos trejeitos do filho, que é jogador de futebol, enquanto ele próprio não gosta do esporte, mas sabe cozinhar muito bem. O que acaba quebrando padrões sociais, como “cozinhar é coisa de mulher” ou “todo homem gosta de futebol”.
Mas isso não apaga o fato de ele rejeitar o próprio filho por não saber lidar com o julgamento dos outros.

Ato Final – Conclusão
Sendo assim, “Feito Pipa” é um filme que respira arte, cultura, resistência e muita nostalgia. Traz a força, o bom humor e o sofrimento de uma criança que só queria ser quem é e realizar seu sonho de ser jogador de futebol, mas que, por ironias e dificuldades da vida, acaba tendo que passar por situações complexas, precisando demonstrar muita garra e fibra.
Então, você que é nordestino, vá prestigiar e conhecer o maravilhoso Gugu. E prepare-se para sair com o coração quentinho da sala de cinema!
Em exibição nos cinemas a partir do dia 5 de novembro.
