Cinema e Séries

De volta ao mundo mágico com Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Os fãs que ficaram órfãos com o lançamento do último filme da saga Harry Potter em 2011 reavivaram suas esperanças bruxas com a criação da série derivada do wizarding world de J.K. Rowling. Animais Fantásticos (título extraído de um livro que faz parte da grade curricular de Hogwarts, escrito por Newt Scamander, aqui protagonista) chega ao seu segundo título cinematográfico prometendo aumentar a temperatura política da saga e ampliar o universo Potter com a apresentação do cotidiano mágico para além do eixo Hogwarts (Reino Unido) –Macusa (Estados Unidos).

O filme que estreia na próxima quinta-feira, 15 de novembro, tem a direção sob o encargo de David Yates (o mesmo que assumiu os últimos 4 filmes de Potter e o primeiro Animais Fantásticos, lançado em 2016) que mantém a parceria de uma década ao lado do produtor David Heyman e conta, para a expansão do mundo mágico, com a contribuição da escritora J.K. Rowling, autora das sagas e incumbida do papel de roteirista para essa franquia comandada por Newt Scamander (Eddie Redmayne, oscarizado por A Teoria de Tudo).

Desde o longa de 2016, já estava estabelecido o fato de que as criaturas mágicas apenas serviriam de fio condutor para colaborar com a história que efetivamente Rowling pretende contar: a ascensão do vilão Grindelwald ao poder, centrado na ideia de que pessoas destituídas de poderes mágicos (trouxas) não merecem os mesmos direitos que os bruxos. O primeiro filme introduziu brevemente essa circunstância e se ocupou, basicamente, de construir o novo panorama de personagens, para que as situações vividas nesse segundo filme possam ter como base aquilo que já foi apresentado ao público e que terá continuidade através dos filmes programados para serem lançados, respectivamente, em 2020, 2022 e 2024.

A fuga de Grindelwald (Johnny Depp) do Macusa leva uma força-tarefa composta pelos Ministérios Mágicos dos EUA e britânico a deslocarem seus funcionários para a França, na caça ao foragido. Paralelamente, sabendo do objetivo do vilão em se aproximar de Credence (Ezra Miller), Alvo Dumbledore (Jude Law) manda Newt Scamander para o mesmo lugar, na esperança de fazer com que Credence não seja seduzido pelo discurso persuasivo de Grindelwald de se unir a ele nesse esforço pela tomada do poder. A proposta do roteiro, ainda que excessivamente floreado, é esta. A reunião de esforços contra e a favor de Grindelwald tornam o filme um enorme jogo de xadrez que a plateia joga para entender a movimentação que gerará os desdobramentos necessários para que a história se estenda aos próximos longas.

Em outras palavras, Os Crimes de Grindelwald pode ser considerado um filme de transição, o que faz com que cenas variadas e diferentes núcleos disputem a atenção do espectador, que precisa se esforçar um pouco para entender todas as jogadas que o longa propõe. Aos mais saudosos, o retorno da Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts à ação terá o poder de arrancar lágrimas dos fãs, que terão uma emoção extra trazida pela trilha sonora, que recaptura Hedwig’s Theme para essas sequências. As novidades, por outro lado, ficam por conta do Ministério da Magia Francês (Ministère des Affaires Magiques), de uma rua mágica que repete o conceito do Beco Diagonal, aqui chamado de Claudel Street, e do circo mágico Arcanus, que traz Nagini (Claudia Kim), uma velha conhecida do público, ainda na forma humana. Fora do circuito parisiense, o público é apresentado à casa de Newt Scamander, que contém um imenso hospital mágico para criaturas em seu porão.

Todos os lugares apresentados ou revisitados têm o poder de cativar até o menos atento graças ao requinte do design de produção. Esse departamento é o verdadeiro caldeirão mágico que proporciona as vistas mais icônicas do universo cinematográfico de Harry Potter. O studio de design gráfico MinaLima (comandado pelos profissionais Miraphora Mina e o brasileiro Eduardo Lima, que estará presente na CCXP 2018), ambienta o longa com artefatos já conhecidos do público, tais como o esqueleto na sala de aula de Hogwarts, o Espelho de Ojesed e a Pedra Filosofal. Em complemento, novos itens se somam à imensa lista de artefatos bruxos, tais como a curioso relicário que Grindelwald carrega consigo e o cartão que Dumbledore entrega a Newt.

O quesito visual ganha o reforço da recém-oscarizada Colleen Atwood. A figurinista garantiu o primeiro Oscar do wizarding world e redobra o esforço para surpreender novamente com figurinos impecáveis, que demonstram a personalidade e a evolução dos personagens. Através dos pôsteres, já era possível entender que o mundo mágico estava mais sombrio graças ao adensamento das vestes bruxas do longa. Para a trama ambientada entre Hogwarts e Paris, variedades de golas indicam como facilmente se reconhece um bruxo em meio aos não-mágicos. A presença do tweed crava a marca escocesa que Hogwarts sempre ostentou (com destaque para a modernização do guarda-roupa de Dumbledore e o novo casaco de Newt); a seda púrpura que cobre Leta Lestrange deixa clara a origem aristocrata de uma das famílias bruxas mais tradicionais (e aterrorizantes) da Europa; o couro do sobretudo de Tina indica que a bruxa está sempre em serviço, não importa o momento e a estampa ofídica e os babados do vestido de Nagini indicam a diferenciação dessa bruxa em relação aos demais. O visual que mais sofreu transformação foi o de Queenie, que mescla tons neutros com um escurecimento gradativo de seu visual, e esse fato é altamente simbólico para a transação que o filme representa para toda a saga.

Para além do que se ver, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald é uma excelente oportunidade cinematográfica para desenhar – ainda que de maneira teatralizada – as origens do totalitarismo e os perigos dos discursos sedutores e evasivos que levam pessoas de boa-fé a concluírem por falsas premissas. Nesse ponto, há de se ressaltar a excelência do trabalho de Johnny Depp no longa. Grindelwald conquista, intimida e causa assombro com a sua perspicácia e inteligência intrapessoal, fato que já o consagra como um dos personagens mais bem elaborados do cinema fantástico em voga e deixa Voldemort com propósitos que beiram a um inconformismo adolescente.

O roteiro misturado é capaz de confundir, mas os eixos que giram em torno de Grindelwald fazem com que o público mantenha a atenção para o que está por vir, mesmo que isso signifique esperar mais 2 anos pelo próximo lançamento (essa habilidade de J.K. Rowling é uma velha conhecida de seus leitores). Jude Law surpreende como o Dumbledore de meia-idade e consegue desempenhar com maestria o papel de uma das personalidades mais amadas do wizarding world, e que assim como foi a chave da série Potter, também é o detentor da verdade na série comandada por Newt Scamander. Eddie Redmayne surge com toda a empatia que é capaz de atrair para seu personagem e se abrilhanta ao manter o público fiel ao lado de Newt, ainda que o vilão mais persuasivo do mundo esteja arduamente trabalhando pelo contrário. O crescimento pessoal de Katherine Waterston no papel merece o destaque, mas, por outro lado, os personagens de Alison Sudol e Dan Fogler parecem estar fora do ritmo, trabalhando desnecessariamente por algo que já está ao alcance deles.

Por tudo quanto exposto, é certo que Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald tem tudo para movimentar o fandom de J.K. Rowling em torno das intermináveis brechas que a autora propositalmente soltou ao longo do roteiro. É previsível que o público não-familiarizado com o universo não julgará o longa como de fácil entendimento. Para os mais acostumados, crava-se o marco de transição de um universo pacífico para uma grande guerra que se aproxima, onde a escolha de um lado para lutar é algo que ninguém poderá fugir por muito mais tempo.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald estreia na próxima quinta-feira, 15 novembro; embora várias sessões de pré-estreia estejam agendadas para os dias 13 e 14 de novembro, com ingressos à venda. O trailer pode ser conferido no link a seguir:

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