Design

Design é tomate. Arte é cebola.

Pareceria um disparate confundir um tomate de uma cebola. Confundir design e arte tem sido tão comum e tão debatido, tudo se mistura e parece que a tendência é sempre crescente, quando o assunto é encontrar distinções. Suas diferenças são, de longe ténues, que, muitas vezes ouvimos um designer assumir-se como artista, mas parece estranho serem poucos os artistas que se auto-denominam designers, pode ser que eles melhor entendam as diferenças existentes.

O designer pode ser artista? A resposta é um forte sim, mas não é o facto de ser designer que o torna artista.

Design é arte? A minha resposta, a mais sincera, é: não. Design não é arte. Arte não é design. Design é tomate, arte é cebola. Mais adiante colocarei os argumentos mais compreensíveis sobre as diferenças existentes entre os dois. Existem livros que esclarecem as diferenças entre os dois, outros mais didáticos que os outros, outros menos complexos que os outros.

Recentemente, ouvi um estudante dizer que não fazia sentido separar design da arte, porque quando queremos fazer algo bonito recorremos à arte. E tinha sua razão ao afirmar isto. O grande problema é encontrar e compreender os conceitos de beleza, estética, arte e design. Nem tudo que é bonito é arte. E nem toda arte é o que achamos bonito.

Outra vez ouvi alguém perguntar: porquê em muitas universidades os cursos de design estão nas faculdades ou escolas de belas artes e vens me dizer que design e arte são diferentes?

Cigarro não é cinzeiro

O design enquanto disciplina e campo profissional tem origem no contexto da arte. Os movimentos que influenciaram o design estiveram sempre ligados à arte e aos artistas e arquitectos da época. Os maiores percursores do design foram artistas e arquitectos. Movimentos como: Art Nouveau, Cubismo, Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo, Construtivismo, Art Déco, De Stijl e Pop Art exerceram uma notável influência sobre o design.

A partir um momento histórico a exigência do mercado cresceu, a produção artesanal já não era capaz de responder às necessidades do mercado. A tentativa de multiplicação de artefactos para satisfazer a um número maior de consumidores, em menor espaço de tempo é que leva ao surgimento do design. Enquanto profissão, o design “surgiu em meados do século XIX – acentuado pela Revolução Industrial – devido às transformações nos processos industriais, aos surgimento das sociedades de massa e à necessidade de projectar para produzir industrialmente, onde o designer passava a controlar o processo que vai da concepção até o uso final do produto.” (Costa & Silva, 2002, p. 99) citados por (Maurício, 2010, p.45)

“O design gráfico nasceu no campo da arte e se deslocou gradativamente – à medida que se construiu como disciplina e práxis sistematizada – para um estatuto social que lhe conferiu lugar na esfera produtiva. (…) À canonização do Modernismo corresponde a consolidação do design gráfico como disciplina e práxis especificas e independentes tanto das artes plásticas como da arquitectura (…)”(VILLAS-BOAS:58)

No seu livro A Gestão do Design, De Mozota (2011) esclarece que “A pré-história do design começa na Inglaterra, com o conceito de padronização da produção, que dissociou a concepção de um objecto da sua fabricação. Até aquela época, essas duas operações estavam incorporadas na habilidade de uma pessoa: o artífice.

Como disciplina e actividade profissional formal teve origem na escola alemã Bauhaus “introduzida em 1919 sob direcção do arquitecto Walter Gropius (Faggiani, 2006:54). A Bauhaus referenciou a palavra “gestaltung” , para dizer acção de praticar gestalt, ou seja, trabalhar com as formas. Sua tradução em língua inglesa, atraibuiu-se o nome de “design” a esta prática. (…)”  ( Faggiani, 2006:54). E trabalhar as formas não simplesmente desenhar, mas esse é outro debate, o de muitos interpretarem design como desenho.

Desmanchando as linhas do vestido

As definições são muitas vezes imprecisas, mas são, apesar disso, imprescindíveis para se ter uma visão mais clara do que é cada coisa. A história é capaz de nos fazer compreender o contexto, as definições nos dizem, ou pelo menos tentam dizer o que uma determinada coisa é. O design ou arte, podem ser entendidos como vestidos, suas definições ajudam a desmanchar as linhas, para compreender a complexidade ou não da peça.

“Diversas foram as nomenclaturas utilizadas para especificar a actividade do profissional que elabora a linguagem visual e durante o percurso da história podemos perceber as mudanças ocorridas – arte aplicada, arte comercial, artes gráficas, comunicação visual – até chegarmos à palavra utilizada e difundida hoje para designar a profissão do designer gráfico.” (Bomeny, 2009, p. 25)

Ao conversar com Bomeny no parágrafo supracitado, podemos ver como foi sempre tendencioso associar o design à arte, desde sempre. Mesmo após o seu desligamento da arte para atender a objectivos “mercantis”.

O designer e historiador Richard Hollis vê o design gráfico como algo que se constitui em “uma espécie de linguagem com uma gramática incerta e um vocabulário em contínua expressão”.

Menos poética é uma definição do próprio Hollis, ao dizer que “design gráfico é o negócio da criação ou selecção de sinais e símbolos, dispondo-os em uma superfície para transmitir uma ideia.”

Se perguntarmos ao Villas-Boas (2003) este nos dirá que design gráfico é uma “área de conhecimento e à prática profissional específicas relativas ao ordenamento estético-formal de elementos textuais e não-textuais que compõem peças gráficas destinadas à reprodução com objectivo expressamente comunicacional.”

E onde estão as diferenças?

Se design é tomate e arte é cebola, onde se encontra a fronteira? O que difere uma da outra? No percurso histórico ficou claro que o design se distanciou da arte para responder às necessidades de reprodução em massa. “O artista comercial, percursor do Design Gráfico, nasceu dessa fusão entre arte e ofício, criando uma nova linguagem necessária para se comunicar com um novo público consumidor”. (RAIMES, 2007:14) citado por (BOMENY, 2009:26). Mas é só isso? A resposta é um consciente não. Designers e artistas compartilham de conhecimentos no seu trabalho, outras vezes a arte precisa intervir no design ou o contrário, mas suas diferenças estão permanentes.

O design resolve. A Arte questiona.

O exercício do design é movido pela tentativa de resolver problemas concretos, reais e imediatos. Uma embalagem não é produto de inspiração ou vontade que veio à alma do designer. O design está directamente ligado à esfera produtiva, ao comércio e aos clientes. Nessa tentativa de resolver os problemas existentes o design precisa se basear na situação real, no contexto. A arte muitas vezes questiona, ela não tem obrigação de apresentar uma solução concreta de um problema. Uma instalação feita numa galeria, não é feita para resolver um problema definido, mas ao se criar uma embalagem de sumo para crianças o objectivo deve estar claro e a finalidade também.

Tomara que Chova, de Ana Pérez-Quiroga

Arte tem interpretações diferentes. Design precisa ter a mesma mensagem.

Os artistas criam seus trabalhos como meio de auto-expressão, isso é uma coisa subjectiva. Se, em algum momento pudermos chamar isso de mensagem, então não é um facto, mas um sentimento. Uma pintura abstracta será sempre sujeita a interpretações diferentes. Nas palavras de Marshall McLuhan, toda obra de arte é uma “mistura sensorial”, podendo ser definida como comunicação ampla e vaga.


Forty Part Motet, de Janet Cardiff, reúne 40 caixas de som. Cada uma delas emite o som de uma voz diferente. Juntas as vozes compõem o coral da Catedral de Salisbury, gravado em ação pela artista. A sensação é de estar dentro do coro

O design pretende, vender ou promover um produto ou serviço, a sua compreensão precisa estar clara e direcionada aos objectivos pretendidos. Aliás, foi esse o contexto do seu surgimento. Quanto mais claro for o design, melhor. “(…) a questão é que o design se tornou, ao longo dos séculos, eficiente em passar uma mensagem clara, sem ambiguidades.” NEWARK:2009

Bookniture (livro -banco), criado por Mike Mak. Um livro que, quando se abre, converte-se numa mesa de apoio, e capaz de caber em qualquer pratileira.

“A arte é conotativa, associativa, implicativa; ela se revela na ambiguidade. (…) O design é exacto, denotativo, explicito. NEWARK:2009

Design é solução. Arte é expressão.

O design só existe porque existe um problema. O processo criativo no design é regido por balizas, de modo que seja no final apresentada um solução. A arte é uma forma de expressão do artista, este não assume compromisso claro sobre o quê e como deve ser o seu trabalho. “Sobre Pontos” – 1928, uma pintura da autoria de Kandinsky é um bom exemplo.

Sobre Pontos, de Kandinsky

De facto, não se pode descorar dos aspectos intuitivos que são recorrentes no design, da criatividade, mas estas não são características apenas de uma obra de arte, são igualmente recorrentes no campo do design e outras áreas. “As técnicas de design combinam o carácter lógico da abordagem científica e as dimensões intuitivas e artísticas do trabalho criativo.” (Borja de Mozota, 2011)

Design deve funcionar. E a arte?

Um cartaz, porquê não é feito nas dimensões de um centímetro para ser colocado na rua? Um celular, porquê é contruído olhando para o ser humano como a medida de todas as coisas? Os óculos, porquê se encaixam tão perfeitamente? É que o design precisa funcionar, ele lida com questões práticas do cotidiano. Na arte nem sempre é assim. O design emerge a partir de um paradigma funcionalista.

www.accademiaitaliana.com

Debate encerrado?

Este debate ainda precisa ser alimentado, ao mesmo tempo que os esclarecimentos sobre as diferenças devem ser clarificadas. Os anúncios, por exemplo, apesar do elo com a arte, não são artísticas a priori, são peças construídas em função de uma expectativa de vendas. A arte tem sido um recurso continuo no trabalho do designer, mas há fronteiras.

O trabalho de design começa quando o cliente chega até si e fornece os objectivos, as balizas, a finalidade do trabalho. O trabalho será avaliado de acordo com esses objectivos previamente estabelecidos. “Há uma pequena quantidade de obras de design em que o designer é o próprio cliente, uma espécie de acte gratuit. Mas essa publicação independente não muda as conveções reconhecíveis do design” NEWARK:2009

Craig, ao escrever sobre as diferenças sobre arte e design, disse no seu artigo publicado pela AIGA:
“Não tenho a pretensão de ser um perito em definir o que é arte e o que não é, mas eu sei que, se olharmos para as diferenças entre arte e design, veremos uma linha muito tênue entre os dois. 
A um webdesigner se for dada as coordenadas exatas para posicionar diferentes pixels coloridos em lugares específicos, ele construirá um belo site de anúncios simplesmente seguindo as instruções; a maioria dos projectos de design tem um conjunto detalhado de instruções e o design é baseado em tendências e influências actuais.
Um artista, por outro lado, nunca poderia ser dado quaisquer instruções específicas para a criação de uma nova obra, pois suas emoções e alma estão a ditar o movimento de suas mãos e os impulsos para o uso do meio. 
Nenhum director de arte vai gritar com um artista para produzir algo completamente original porque é isso que faz um artista. “

Debate encerrado? A resposta é: debate aberto. Uma coisa é tomate, outra é cebola. Quem prepara tomate, não preparou cebola.

Bibliografia

Bomeny, M.H.W. O Panorama do design gráfico contemporâneo. Tese para obtenção do título de Doutor. Faculdade de Arquitectura e Urbanismo de São Paulo – FAUSP. 2009. 204p.

De MOZOTA, Brigitte Borja, et all. A Gestão do Design: Usando o design para construir valor de marca e inovação corporativa. Bookman Companhia Editora Ltda. 2011. Porto Alegre.

FAGGIANI, Kátia. O Poder do Design: Da Ostentação á Emoção. 1ª Edição. Thesaurus Editira de Brasília. 2006. Brasília.

NEWARK, Quentin, O que é design gráfico?, Bookman Companhia Editora Ltda. 2009. Porto Alegre.

VILLAS-BOAS, André, O que é e o que nunca foi design gráfico, 5ª Edição, 2AB Editora Itda, 2003, Rio de Janeiro

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