Ato 1 – O que é “O Shaolin do Sertão 2”?
Para quem se divertiu e amou o filme “O Shaolin do Sertão”, o ator Edmilson Filho e o diretor Halder Gomes, após 10 anos, buscam levar o público novamente para o Ceará, para ver as novas presepadas do lutador de Kung Fu mais nordestino que existe, com “O Shaolin do Sertão 2”. Mas será que tem história e boas razões para isso?
Nessa continuação da jornada do nosso “herói” do Sertão, Aluízio Li vai passar pelas seguintes enrascadas: após ter sua academia derrubada por falta de pagamento e estar devendo a Deus e ao mundo, nosso protagonista vai correr atrás do prejuízo para se manter vivo, quitar as dívidas e retomar sua academia de Kung Fu, ao aceitar participar de um torneio de luta duvidoso, proposto por um grupo de trambiqueiros.
Ato 2 – Comentários gerais
Normalmente, criamos expectativas para ver a continuação de um filme, principalmente quando seu antecessor é bom e deixa brecha para uma possível expansão da história e de seus personagens. E “O Shaolin do Sertão” tinha essa possibilidade. Tanto que, 10 anos depois, ela veio com “O Shaolin do Sertão 2”. Mas não foi tão bom quanto poderia ser, principalmente pela longa diferença de tempo entre uma obra e outra.
Pois a experiência, ao iniciar esse “novo” capítulo da vida de Aluízio Li (Edmilson Filho), é a de que ele não amadureceu nada, não fez absolutamente nada, não cresceu nada e só veio para sofrer. E, ao concluir o filme, terminei com a sensação de ter visto praticamente o mesmo filme, só que com uma mudança ou outra para parecer algo novo e com menos requinte que o primeiro.
E por que eu digo que parece a mesma narrativa, só mudando pequenos detalhes? Pois temos novamente a narrativa da jornada do herói. O protagonista começa na “tranquilidade”, até que surgem diversos problemas e até um chamado do “dever”, bem no estilo “O Rei Leão”. A procura novamente pelo mestre interpretado por Falcão, o momento de treinamento, a queda para a posterior vitória. E, no meio de tudo isso, uma mistura de personagens que não têm tanta importância narrativa e estão mais para fazer piadas, referências à cultura nordestina de forma exagerada e escrachada, além daquele tipo de humor já conhecido pelo público.
Então, acaba que esse segundo filme não tem nenhum propósito plausível, a não ser tentar fazer alguma bilheteria com uma narrativa reaproveitada, piadas com “xibata” e outras situações do cotidiano popular brasileiro, especialmente do Nordeste, e, claro, a sátira às artes marciais, aos filmes de Kung Fu e aos estereótipos orientais. O que, para uns, pode ser levado como “piada” e, para outros, como um tipo de humor que não funciona mais.
Além disso, muitas vezes parece que o roteiro esquece coisas que já foram escancaradas na frente do protagonista, mas que ele simplesmente ignora. Por exemplo, logo no começo do filme, ele é alertado de que havia algo de errado com o grupo de “empresários”, mas ignora completamente.
Outro ponto que vale ressaltar é o abraço à fantasia e ao leve sobrenatural, que pode ser levado como artifício para fazer humor ou como algo extremamente desnecessário. Contudo, o filme continua tendo aquela mesma energia calorosa, caótica e engraçada, proporcionada pelos personagens, pelas piadas e pelas expressões populares nordestinas, que dão todo um charme e diferencial. Mesmo que nem sempre elas façam rir genuinamente e acabem caindo na repetição ao longo da história.

Ato 3 – Direção
No comando da direção, não teve jeito: o premiado diretor Halder Gomes continua no projeto e já tem uma bagagem gigante, com “Cine Holliúdy” (2012), “O Shaolin do Sertão” (2016), “Bem-vinda a Quixeramobim” (2022) e muitos outros longas-metragens que transitam entre a comédia e o drama.
E, em “O Shaolin do Sertão 2”, ele continua com uma direção bela e dinâmica, com cada cena muito bem pensada e executada. Porém, senti falta daquele toque mais antigo, como se o filme realmente estivesse sendo gravado nos anos 80. Está tudo muito polido, muito limpo. Além disso, o filme abre mão de algumas escolhas criativas que eram a assinatura da obra anterior, recriando cenas de um filme clássico de Kung Fu.

Ato 4 – Atuações
Já em relação às atuações, o elenco consegue entregar toda a veracidade e energia do povo nordestino. Edmilson Filho (Aluízio Li) mantém todos os trejeitos de seu personagem com perfeição e aquele seu estilo clássico de atuação, que mistura sarcasmo e respostas rápidas. Fafy Siqueira (Dona Zefa) brilha todas as vezes que entra em cena, sendo uma personagem de fibra e com ótimas sacadas de humor, além dos exageros e privilégios maternos.
Igor Jansen (Piolho) e Haroldo Guimarães (Jesus) entregam o pouco que lhes foi pedido: serem gaiatos. Falcão (Chinês) tira humor de seu jeito “sábio de ser”. Marcelo Serrado (Demóstenes) traz toda a caricatura de um bom trambiqueiro, e Priscila Fantin (Jussimara) mostra que sabe transitar muito bem entre o drama e a comédia.

Ato Final – Conclusão
Sendo assim, “O Shaolin do Sertão 2” é uma comédia nordestina raiz, que cumpre seu papel de entreter e divertir, principalmente para quem gosta do humor de Edmilson Filho. Mas escorrega na história ao não trazer razões coerentes para uma sequência que levou tantos anos para sair. Então, se você gosta de um humor pastelão, bem no estilo “Os Trapalhões”, e gostou do primeiro longa-metragem, vá ao cinema conferir essa obra do Sertão misturada com a China.
Em exibição nos cinemas a partir de 20 de agosto.
