Design de capas: Innervisions de Stevie Wonder e o art déco

Design de capas: Innervisions de Stevie Wonder e o art déco

Por Amanda Ardisson

Recentemente li uma matéria do Felipe Cruz na coluna O som e a fúria, da revista Veja, que relembrou alguns álbuns clássicos da música internacional que completam 50 anos de lançamento em 2023. O ano de 1973, marcado pelo surgimento de uma série de movimentos artísticos e culturais, foi palco de notáveis lançamentos que vão desde um símbolo do rock and roll como Dark Side of The Moon, de Pink Floyd, a um rock de vanguarda de David Bowie em Aladdin Sane.

Ao rolar a página do artigo, uma capa singular me chamou a atenção. O álbum Innervisions de Stevie Wonder, lançado no dia 3 de agosto de 1973, traz uma capa com formas geométricas e curvas, com uma composição ousada e vibrante e uma tipografia elegante. Confesso que fiquei admirada com a sutileza e a tensão mútua que a capa apresenta, de forte semelhança estética com o art déco. Embora não seja uma obra específica do movimento artístico, é difícil não fazer a comparação.

Innervisions de Stevie Wonder e a década de 1970

A capa foi produzida pelo artista gráfico estadunidense Efram Wolff, que já trabalhou em diversos projetos musicais, mas também em capas de livros, logotipos, cartazes de filmes e peças publicitárias para marcas como a Coca-Cola, BMW e Pepsi. No projeto da capa, Wolff criou uma arte impecável que reflete a personalidade artística de Stevie Wonder, sobretudo o conteúdo político e social do álbum. A capa do álbum Innervisions é uma das mais icônicas do repertório de Wonder, sendo aclamado pela crítica e considerado um dos melhores discos de todos os tempos.

Capa do álbum Innervisions (1973) de Stevie Wonder. Fonte: Tiago Ferreira.

Innervisions apresenta uma combinação única de funk, soul, jazz e rock em sua melodia, já suas composições dialogam com as questões sociopolíticas e de desigualdade racial da década de 1970. Esse período é caracterizado por variadas lutas sociais e políticas, que afetaram todo o mundo. E muitas dessas questões debatidas tiveram um impacto significativo na cultura popular e na música da época, com muitos artistas discutindo esses temas em suas canções e obras.

Uma das principais questões defendidas se referem às lutas sociais contra a discriminação e segregação racial, visto que, nos Estados Unidos, a partir dos anos 1960 que a luta contra o racismo começou a ser praticada nas leis. A batalha contra o racismo na década de 1970 foi evidenciada por diversos movimentos em busca da igualdade de direitos e liberdade, por exemplo, com a revogação das leis de segregação racial. Mesmo assim, o racismo e a discriminação ainda continuam sendo uma realidade para muitas pessoas pretas até hoje.

Nesse sentido, uma das formas de resistência e luta foram as contribuições da música, da arte, do cinema e da literatura, expressadas em uma cultura rica de valores e crenças de matriz africana, que ajudavam nos primeiros passos da construção da igualdade racial na sociedade. Especificamente no universo musical, alguns estilos mais populares da década de 1970 foram o disco, rock, soul, funk, reggae, entre outros. É possível dizer, portanto, que Innervisions combinou melodias de diversos gêneros de destaque nos Estados Unidos da época.

Além disso, Wonder reúne letras que abordam diferentes questões sociopolíticas e temas relevantes sobre o racismo existente na sociedade até hoje. No geral, as letras das músicas de Innervisions faziam uma crítica à sociedade americana e Stevie usava suas canções para falar sobre o racismo, a desigualdade social, a poluição, a guerra e a corrupção. O álbum teve um grande impacto na cultura popular e na música afrodescendente, inspirando muitos artistas de soul, funk e R&B. Innervisions foi um sucesso comercial e rendeu alguns dos maiores sucessos de Stevie Wonder, como “Living for the City”, “Higher Ground” e “Don’t You Worry ’bout a Thing”.

Por exemplo, “Living for the City”, uma das melhores canções do álbum, conta a história de um jovem preto que se muda para Nova York em busca de uma vida melhor, mas acaba sendo preso injustamente por um crime que não cometeu; “He’s Misstra Know-It-All” faz uma crítica mordaz à corrupção política e à ganância; e “Golden Lady” que fala sobre a beleza da natureza e a importância de preservar o meio ambiente.

No período do lançamento do álbum, Wonder já era uma figura estabelecida no cenário musical americano como um dos mais talentosos músicos e compositores de sua geração. Ele começou sua carreira na Motown Records aos 11 anos de idade e, ao longo dos anos 1960 e 1970, mostrou uma maior habilidade em criar arranjos complexos e explorar diferentes estilos musicais, tornando-se um mestre em combinar elementos de funk, jazz e rock em suas composições.

A personalidade artística de Wonder quando lançou Innervisions era a de um artista maduro e confiante, politicamente engajado e que estava no auge de sua carreira e continuava crescendo. O álbum ganhou vários prêmios musicais, como o Grammy’s Awards na categoria de Álbum do Ano em 1974, e é recorrentemente citado como um dos melhores álbuns por artistas de diferentes gêneros. Ou seja, Innervisions é um dos álbuns mais icônicos e influentes da história da música, tanto por seu som inovador quanto por suas letras poderosas e encorajadoras.

Stevie Wonder com sua mãe, Lula Mae Hardaway, e outros no Grammy’s Awards de 1974. Fonte: Ana Monroy Yglesias.

Stevie Wonder ainda está ativo na indústria musical e continua sendo considerado um dos artistas mais influentes e talentosos de todos os tempos. Wonder ainda se apresenta ao vivo, escreve e grava músicas, além de se envolver em causas sociais e políticas. O legado de Wonder na música continua a inspirar gerações de artistas e fãs, e ele permanece um ícone da música americana e um defensor incansável dos direitos civis, justiça social e causas humanitárias.

A capa de Innervisions e a tipografia art déco

Voltando à capa do álbum, podemos dizer que sua arte apresenta elementos visuais semelhantes às formas utilizadas no movimento artístico art déco do início do século XX, embora não seja uma de suas obras típicas. A capa apresenta formas geométricas, linhas retas e curvas suaves que se cruzam e uma tipografia elegante, característica do movimento. Os desenhos das letras feitas por Wolff remetem, em um primeiro momento, àqueles letreiros enormes de fachadas e edifícios comerciais, que fazem parte da arquitetura e da comunicação visual de grandes centros urbanos.

Letreiro da fachada do estádio do Pacaembu, na Zona Oeste de São Paulo, com uso da tipografia arquitetônica inspirada no art déco. Fonte: Vagner Campos/TV Globo.

Assim como os elementos do art déco apresentavam formas mais geométricas e simétricas, o desenho das letras desse movimento também acompanhou essa estética. O estilo tipográfico usado acabou por dar origem ao que chamamos hoje de tipografia moderna, que foi a solução criada por muitos professores e estudantes da Bauhaus da década de 1930 para superar os estilos anteriores e ditar o “bom design” das próximas gerações.

Em busca de uma tipografia funcional e universal, as formas acabam sofrendo uma abstração, como o uso de elementos geométricos, a diminuição do contraste entre traços finos e grossos e a retirada das serifas. No entanto, antes da tipografia moderna, pode-se dizer que o estilo do art déco funcionava como uma transição das letras caudais com ondulações e floreios do art nouveau para formas geométricas e monolineares da modernidade. Ainda com algumas decorações, a tipografia do art déco ainda mantém o contraste entre os traços, as serifas e ornamentações, como espirais e floreios.

Capa feita pelo artista gráfico J. Carlos para o Almanaque Tico-Tico, periódico que circulava no Rio de Janeiro no início do século XX. Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira.

Esse estilo influenciou boa parte da produção gráfica global entre as décadas de 1920 e 1930, sendo ainda uma grande referência para diversas profissões na atualidade, principalmente para a arquitetura e o design. Não é atoa que a capa de Innervisions, produzida na década de 1970, possivelmente possa ter sido projetada com uma influência do movimento. Mas, sendo realista, é bem provável que Efram Wolff não pensou em nada disso e seu objetivo era relacionar a personalidade de Wonder com o conteúdo do álbum em meio ao contexto social e político da época. É bem provável que estas sejam apenas algumas reflexões de uma designer apaixonada por letras, que buscou enaltecer esse grande sucesso de Stevie Wonder e parabenizar Innervisions pelos seus futuros 50 anos.

Até a próxima!

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