Design No meio do caminho tinha azulejos…

No meio do caminho tinha azulejos…

Por INGRID WANDERLEY

Placa pintada e vidrada em uma das faces, possuindo na outra face fendas ou relevo para facilitar o assentamento, geralmente apresenta formato quadrado. É essa a maioria das definições da palavra “azulejo”. Pode ser considerado um material decorativo que se diferencia pela sua aplicação na arquitetura, pela configuração espacial que promove e pela adequação aos espaços para os quais é concebido. Assim, é pensado para um local específico, em áreas externas, e se ajusta às superfícies a qual se destina, valorizando o espaço arquitetônico

O azulejo pode ser visto por vários aspectos: o histórico, o técnico e o estético. Estando ligado à arquitetura, é criado para ser usado, visto, e, portanto, analisado depois de aplicado nas paredes. Não é fácil isolar o azulejo das superfícies a que pertence, pois perderia todo o sentido e não poderia ser devidamente apreciado. (CALADO, 1998).

Fachada de azulejos portugueses. Fonte: CAVALCANTI, 2002.
Fachada de azulejos. Foto: acervo da autora.
Azulejos da fachada da Escola Estadual Oliveira Lima. Foto: Lidia Vidigal

No período colonial o azulejo foi bastante usado em fachadas de casas e sobrados e no início do século XX, o neocolonial começa a retomar o seu uso, ainda que timidamente, em frontões de fachadas ou como detalhes em muros e paredes externas. Em alguns períodos da história brasileira, o azulejo foi relegado ao esquecimento, até a segunda vinda de Le Corbusier ao Brasil, em 1936, quando sugeriu que num pais de clima tropical quente e úmido o azulejo deveria ser usado como material de proteção.

O azulejo é um elemento de forma conhecida ao qual se pode aplicar, com certa liberdade, e por intermédio do processo de impressão silk screen, desenhos de traços, planos, retículas, conservando relativa fidelidade nas texturas. Além disso, permite a composição em mural composto de elementos diferentes ou iguais, foi largamente utilizado pelos nossos antepassados portugueses dentro da escala do artesanato, e que tentamos restabelecer como elemento disponível à arquitetura. Vem sendo utilizado e defendido por alguns, e esquecido e menosprezado por outros. Pode-se destacar aqui algumas de suas características como: impermeabilidade adquirida pela aplicação do esmalte na superfície; resistência ao ataque dos ácidos, álcalis, umidade e vapores, nas condições normais de utilização; resistência a manchas (facilidade de limpeza); ausência de pintura; facilidade de aplicação; substituição a baixo custo; possibilidade de ser obtido em várias cores e diferentes desenhos; baixa expansão térmica (EGON, et al,1972).

A artista portuguesa Maria Keil, renova o uso do azulejo e o coloca em lugar de destaque na arquitetura e na arte portuguesa, afirma que muita gente tende a colocar o azulejo no plano do artesanato, concebendo-o, apenas, como material utilitário. Ela, no entanto, compreendeu que a função essencial do azulejo era envolver os espaços que revestia de qualidade e requinte, dar brilho e frescura, tornar agradáveis os lugares onde as pessoas viviam.De acordo com Alcântara (2001), o estudo sobre o azulejo e sua linguagem tem sua importância garantida pelo papel que este material representa em nossa cultura e deve ser feito como troca de experiência entre pesquisadores de diversas regiões do Brasil e também Portugal. Este intercâmbio é fundamental para melhor entendimento da linguagem do azulejo e de sua história. Os azulejos foram usados de várias maneiras diferentes, criando estilos decorativos. Algumas vezes seguindo algum estilo arquitetônico, outras vezes agrupando estilos diferentes em um. Sabe-se que o azulejo chegou ao Brasil em sincronia com as demais artes e seguiu o mesmo processo de aculturação existente em Portugal. Ou seja, para o Brasil foi transportado o mesmo gosto, a mesma técnica e os mesmos materiais de Portugal.

Durante o século XVII, a azulejaria se desenvolveu nos dois países e atingiu altos níveis decorativos. No Brasil, os revestimentos com azulejos de padrões em policromia, formando tapetes enquadrados por cercaduras, não atingiram a monumentalidade de exemplos portugueses, mas foram bem representados em Pernambuco e Bahia. Os gostos, modas, costumes, enfim, quase tudo o que a Corte produzia era trazido ao mesmo tempo para a Colônia. Aconteceu o mesmo com a azulejaria. Contudo, a escassez de materiais para acabamento externo das fachadas, juntamente com o clima quente e úmido do litoral brasileiro, que dificultava a conservação e impermeabilização, podem ter levado os construtores desse século a utilizar o azulejo, mais econômico (pela sua durabilidade), para enfeitar e também garantir a boa conservação das fachadas de igrejas e adros. Surgia assim no Brasil o ‘Azulejo de Fachada’, desconhecido em Portugal.

Os construtores brasileiros recorreram ao azulejo para revestimento e proteção das fachadas das edificações. Na verdade, existe certa polêmica entre os estudiosos em relação a essa criação ou inovação do uso do azulejo em fachadas. Santos Simões, historiador português, afirma categoricamente que essa é uma invenção brasileira, enquanto que os especialistas brasileiros Dora Alcântara e Mário Barata atribuem tal invenção a Portugal. Polemicas a parte, é fato que, além de embelezar as fachadas, o azulejo tinha a função utilitária de proteção contra a umidade, típica do nosso clima tropical, agravada nas cidades litorâneas ou cidades situadas às margens de rios, devido à salinidade. O azulejo impermeabilizava e isolava os exteriores, garantindo melhor e mais longa conservação.

Passando outro dia a pé, em Recife, onde moro, fiz o trajeto da Avenida Conde da Boa Vista até o Mercado da Boa Vista, eis que me deparo com vários exemplares de fachadas cobertas de azulejos. Mesmo não podendo ainda afirmar suas datas e origens, relembro e confirmo minha admiração por essa pedrinha brilhosa, não só pela sua capacidade de testemunhar nosso rico patrimônio histórico, mas inclusive de ser um elemento de ligação entre técnica, arte e arquitetura, com inúmeras possibilidades plásticas.

Para quem quer se aprofundar sobre o tema: Soube recentemente de um passeio turístico pelas ruas do Recife que tem por objetivo conhecer um pouco da azulejaria recifense. Na verdade, é um Walking Tour enfocando a presença da azulejaria na história do Recife, azulejos portugueses e holandeses, além de azulejos modernos. Ainda não pude conferir esse passeio, mas segue a dica https://www.instagram.com/p/CneGlN6OVWS/?utm_source=ig_web_copy_link

https://teses.usp.br/teses/disponiveis/18/18141/tde-10112006-142246/publico/ingrid_exemplar_final.pdf

https://teses.usp.br/teses/disponiveis/16/16138/tde-25032010-154757/publico/o_azulejo_na_modernidade_arquitetonica.pdf

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