Real Leather. Stay Different.: quando o couro desafia o imaginário

Real Leather. Stay Different.: quando o couro desafia o imaginário

Por Design Culture

Jurados da primeira edição brasileira revelam como moda e design estão desconstruindo o código tradicional associado ao material

A primeira edição brasileira da Real Leather. Stay Different., competição internacional voltada a estudantes de moda e design, premiou projetos que propõem novas interpretações para o couro e seus usos na criação contemporânea. A partir do olhar dos profissionais que integraram o júri, a iniciativa aproveita a competição para ampliar a conversa sobre as possibilidades do material.

A Real Leather. Stay Different. é uma iniciativa global dedicada a ampliar o conhecimento sobre o couro e destacar suas diferentes características, aplicações e possibilidades de criação. Mais do que reconhecer novos talentos, a competição também funciona como um ponto de encontro entre profissionais e criadores para discutir como uma matéria-prima tradicional pode continuar gerando novas linguagens na moda e no design.

Entre os jurados da edição brasileira estão a marca autoral Viga, a estilista Renatta Gomes e o designer Marnei Carminatti, que, a partir de suas experiências e especialidades, compartilham suas perspectivas sobre a matéria, criação e identidade.

Para Caio Nakane da Viga, o primeiro passo para explorar o couro de maneira menos óbvia é deixar de enxergá-lo apenas como revestimento. “O couro pode ser uma possibilidade de construção. A espessura, a textura e a maleabilidade podem orientar o desenho de uma peça e sugerir volumes, dobras e estruturas”, afirma. Essa relação permite também reinterpretar códigos já conhecidos: um loafer, por exemplo, pode ter suas proporções deslocadas e ganhar uma silhueta contemporânea.

A materialidade é igualmente importante para a construção da identidade de uma marca. “Uma mesma forma ganha outra presença em camurça, em um couro mais estruturado ou com uma textura marcada. Buscamos uma identidade reconhecível pelo volume, pela proporção e pela materialidade. Existe uma ideia de autoridade silenciosa nisso, de o produto comunicar sua personalidade sem depender de um logotipo evidente. Também me interessa como o couro registra o uso e ganha características de quem o veste. A criação continua nessa relação entre objeto e pessoa”, explica Caio. Para a marca, essa capacidade de transitar entre o familiar e o inesperado ajuda a manter o couro atual. “É uma matéria-prima com história e com muito espaço para novas perguntas.”

Na moda, essa transformação também passa pela desconstrução dos códigos tradicionalmente associados ao couro. Para a estilista Renatta Gomes, novas técnicas e misturas de materiais permitem que a matéria-prima transite por propostas muito diferentes. “O couro não determina uma única linguagem. Pode ser minimalista ou exuberante, delicado ou dramático, clássico ou contemporâneo. É um material que permite construir identidade e, quando bem trabalhado, deixa de ser apenas matéria-prima para se tornar parte da linguagem autoral da peça.”

Entre as possibilidades que mais chamam sua atenção estão aquelas que aproximam o couro do comportamento de um tecido, com recortes, tramas, franjas, superfícies vazadas e bordados, além de combinações com materiais de naturezas completamente diferentes, como tule, viscose e fibras delicadas. “Romper com a imagem tradicional do couro é permitir que ele seja percebido não apenas pela sua resistência, mas pela sua capacidade de criar textura, transparência, movimento e emoção”, afirma.

No design, o próprio comportamento da matéria pode ser o ponto de partida para o desenvolvimento de um produto. Segundo o designer Marnei Carminatti, textura, espessura, elasticidade, resistência e outras características físicas e sensoriais interferem diretamente na maneira como um projeto é pensado e construído.

“O couro não é uma matéria completamente neutra. Um dos aspectos mais interessantes acontece quando o designer deixa de pensar nele apenas como revestimento ou acabamento e passa a entendê-lo como um elemento ativo do produto”, explica. Para ele, experimentar diferentes espessuras, tensionar, dobrar, cortar, sobrepor, unir, moldar ou trabalhar a superfície pode revelar soluções que não apareceriam apenas a partir do desenho. Muitas vezes, é o comportamento da própria matéria que apresenta ao designer uma possibilidade que ainda não havia sido imaginada.

“Um couro macio e maleável pode gerar uma bolsa que se constrói pelo movimento e pela queda da própria matéria. Um couro mais firme pode permitir volumes precisos, estruturas e geometrias. A matéria não está apenas revestindo o produto; ela participa da construção da forma.”

Os três olhares partem de universos diferentes, mas convergem para uma mesma percepção: a permanência do couro na criação contemporânea está justamente em sua capacidade de ser reinterpretado. Na moda, isso significa ir além da associação com peso, inverno e estrutura. No design, significa compreender suas características como parte do próprio processo criativo. E, para a Real Leather. Stay Different., significa reconhecer a tradição do material sem limitar as possibilidades de quem cria a partir dele.

Além de suas possibilidades criativas, a durabilidade do couro também é um aspecto importante quando se fala em sustentabilidade. Quando bem cuidado, o material pode acompanhar seus usuários por muitos anos, prolongando a vida útil de bolsas, calçados, roupas e acessórios. Essa longevidade reforça a importância de pensar o design para além das tendências passageiras, valorizando peças duráveis, o uso prolongado dos materiais e escolhas mais conscientes na criação e no consumo. Para a Real Leather. Stay Different.. Reconhecer o potencial do couro também significa ampliar o debate sobre durabilidade, qualidade e o papel dos materiais na construção de um futuro mais sustentável para a moda e o design. 

Confira também

Deixar um comentário