A Semana do Design Itaú chegou à sua edição de 2026 gratuita, híbrida e a programação organizada em quatro trilhas: conversas que transformam o fazer, que evoluem tecnologias, que reinventam carreiras e que constroem marcas nos levaram a perceber porque de fato de fato o evento se tornou um dos mais importantes do Brasil e América Latina. Estivemos lá pela segunda vez, nos dois dias, e o que segue é um relato do que ficou na cabeça e no caderno.
A tecnologia deu o ritmo da abertura. Um dos números mostrados no palco por Fabricio Dore, chamou atenção: foram 59 modelos de IA lançados em 2024, 91 em 2025 e 96 em 2026 até agora, quase um relevante a cada três dias. Só que a mesma apresentação fez questão de lembrar que os problemas das pessoas não mudam nessa velocidade. Foi nessa mesma fala que apareceu o alerta que mais conversou com o nosso trabalho. Citando Katie Dill, Head of Design na Stripe, no Lenny & Friends Summit 2026, o slide dizia que quando qualquer um constrói qualquer coisa, o padrão vira genérico. Ao lado do texto, uma grade com dez landing pages geradas por IA: mesma hierarquia, mesma serifa elegante, mesmo gradiente escuro. A tentação do pronto é sedutora porque parece eficiência. A apresentação terminou voltando ao básico: resolver problemas reais, melhorar a vida das pessoas e gerar resultado para a empresa.
Experiência para agentes, sistemas para pessoas
John Maeda, do GitHub, abriu a trilha de tecnologia com “AX e a evolução do UX”, sobre a experiência de agentes de IA como nova camada do trabalho de design. Um dos slides do dia mostrava um sistema que guarda a experiência acumulada para depois aprender com ela, com dois caminhos de melhoria: refinar o harness, que reúne ferramentas, prompts e políticas, ou treinar o modelo base. O assunto é técnico, mas diz muito sobre o que vem pela frente, interfaces que aprendem com o uso.
Pedro Hernandez, da Figma, tratou o design system como infraestrutura de inovação. A lógica é que, quando as decisões repetitivas já estão resolvidas, o time ganha energia para experimentar, e num cenário em que a IA gera telas em segundos, é o sistema que garante coerência. O tema voltou no segundo dia, quando Raphael Sonsino e Leandro Magnani, do Itaú, mostraram os bastidores da criação do novo Experience System do banco, uma rara chance de ver como se decide algo que precisa funcionar em escala.

Cinco lições para uma marca em movimento
A sessão mais fácil de levar para a prática foi “Design para marcas em movimento”, com Chantal Kopenhagen, da GoldKo, e Regys Lima, do Itaú. Ela organizou a conversa em cinco lições:
- Preserve o ativo amado. Na história contada, o gato atravessou todas as fases da marca.
- Mude antes de precisar. Rebranding como hábito, não como crise.
- Itere em versões. v5, v6, teste A/B: design como produto.
- Ouça em todo ponto. Loja, verso da caixa, DM, comentário.
- Produto é a mídia. O sabor vem primeiro, e a fundadora conta a história.
A segunda lição é a que mais pesa para quem atende clientes. A maioria das marcas só muda quando dói, e mudar aos poucos custa bem menos. O tema ganhou um segundo ato no dia seguinte, com dois painéis. Em “Na era da inteligência, como não deixar uma marca artificial?”, Marina Riecken, Michele Marrul, Mye Rocha e Beatriz Oliveira, todas do Itaú, discutiram o risco de marcas que soam iguais por terem saído das mesmas ferramentas. Em “De uma marca que fala para uma marca que entende”, Juliana Cury, do Itaú, conversou com Marina Daineze, da Vivo, Maria Fernanda Albuquerque, da Alpargatas, e Marcel Vieira, da Natura. A troca de verbo no título, de falar para entender, descreve bem o movimento que as grandes marcas tentam fazer.
Uma das ideias que mais mexeram com a plateia foi dita de modo direto: sem resultado para a empresa, não há produto. Uma experiência só se sustenta quando valor para as pessoas e resultado para o negócio fazem parte da mesma conversa. O argumento veio apoiado no McKinsey Design Index, que analisou 300 empresas de capital aberto ao longo de cinco anos, com mais de 2 milhões de dados financeiros e 100 mil ações de design. O cenário de IA complica a conta. Produtos com IA trazem custos novos, como o consumo de tokens, e criar resultado financeiro com eles tem sido mais difícil do que parecia. Um exemplo citado: ter principalidade, ou seja, ser o banco principal do cliente, passa a ter custo ao competir com a própria IA para resolver dúvidas.
Daí vem a mudança de fundo. O que era dividido entre design, produto e engenharia, o desejável, o viável e o factível, tende a se juntar. Viabilidade e factibilidade viram insumo do design.
Liderança e experimentação
O painel “A reinvenção do Design começa na liderança”, com Fabricio Dore, Virgínia Bonfante, Clayton Caetano e Mariana Gomide, todos do Itaú, foi um dos mais esperados do primeiro dia. A tese está no título: sem quem lidera abrindo espaço, revendo estruturas e aceitando mudar o próprio papel, a reinvenção do design não sai do slide.
Logo depois, Marcelo Eduardo, da Work & Co, apresentou “100x designer e a (r)evolução do design”, com o argumento de que a IA devolveu à profissão o poder da experimentação. A ideia conversa com o alerta sobre o genérico: experimentar rápido só ajuda quando existe critério para escolher o que fica.
Doze novas capacidades de design
Se a pergunta é o que fazer com a profissão, a resposta mostrada no palco foi um mapa. O Itaú apresentou 12 novas capacidades de Design, que podem ser lidas em seis frentes:
- Agentes e conversa: Agentic Experience Designer e Conversation & Behavior Designer, que projetam jornadas em que agentes de IA entendem intenções, decidem e executam, e definem personalidade, comportamento e autonomia.
- Experiência e serviço: AI Experience Designer e Human-AI Service Designer, voltados a experiências adaptativas e multimodais e à orquestração entre clientes, colaboradores, agentes e canais físicos e digitais.
- Construção: Design Engineer e AI Creative Technologist, que fazem experiências funcionarem com código, GenAI e prototipação avançada.
- Sistemas: AI Design Systems Architect e DS Eval Designer, que estruturam design systems legíveis por agentes e avaliam a qualidade do que eles produzem.
- Pesquisa e conteúdo: Eval Researcher, AI Ops Researcher e AI Content Designer, dedicados a avaliar a qualidade das experiências de IA, automatizar pesquisa com rigor e projetar conteúdo dinâmico e personalizado.
- Operação: AI Design Operations Lead, que orquestra agentes, ferramentas e métricas para escalar o design com IA.
Os nomes em inglês podem soar como moda, mas o desenho é claro. A profissão não desaparece. Ela se divide em especialidades novas, e boa parte delas gira em torno de avaliar, orientar e dar critério ao que a máquina produz.
Ainda sobre como o design vai além, Carlos Mignot e Rodrigo Saiani, da Plau, trouxeram “Tipos de conversa” e defenderam que, assim como a música, a tipografia dá início a ótimas conversas, junta pessoas e acelera ideias. Para provar, mostraram referências editoriais. Uma dupla de páginas da Little White Lies, edição 60, de 2015, com ilustrações de Emma Balebela, ilustrou a ideia de que cada parte de uma publicação tem uma função. A página de cartas da Zembla Magazine, com editor Dan Crowe e direção criativa de Vince Frost, mostrou o leitor participando ao trazer perguntas. Uma boa revista, nessa leitura, é uma conversa diagramada.





Segundo dia: o humano no centro
Virgínia Bonfante abriu o dia e já assumiu o primeiro painel, “Por trás de todo CNPJ existe um CPF”, com Rodrigo Lemes, do Mercado Livre, e Renan Alves, da Uber. Mesmo no design para empresas, quem usa é uma pessoa, e é impressionante quantos produtos B2B são desenhados como se não fosse. Em seguida, Bel Miranda, do Grupo Boticário, Ricardo Almeida, do Google Cloud, e Milena Mariano, do Itaú, falaram de experiências conversacionais com GenAI, num momento em que a conversa passa a ser a própria interface.
A trilha de carreira do dia começou com Gabriel Sá e “Pense dentro da caixa”, uma inversão do clichê criativo que valoriza as restrições como ponto de partida. No dia anterior, Piero Franceschi, da StartSe, havia tocado no mesmo nervo com “O trabalho de ser humano”. Entre os dois, a pergunta de fundo era a mesma: o que sobra de insubstituível quando a execução é dividida com a máquina?
A resposta mais prática veio de Rafa Voss, da Voss Academy, em “Carreira em tempos de IA”. Ele usa IA em quase tudo o que faz: edição de vídeo, com cortes, silêncios e repetições, roteiros, posts no Instagram e também pesquisa, apresentações e sites. A regra que repetiu foi “eu penso, e a IA trabalha junto comigo.” O exemplo que ilustrou foi o de uma pessoa que escreveu a própria tese: ela entregava as anotações, recebia de volta perguntas e contrapontos e só então chegava ao texto final. Nas palavras do slide, ela usou a IA para executar, não para pensar por ela.
Ainda sobre tecnologia, o painel “ia.i: levando inteligência para mais perto das pessoas”, com Alexandre Rossi, Eduardo Maia, Fayner Costa e Juliana Ewers, do Itaú, apresentou a iniciativa do banco de tornar a IA mais próxima do uso cotidiano.
Sistemas e marcas: o risco de ficar tudo igual
O design system foi tratado como infraestrutura de inovação. Quando as decisões repetitivas estão resolvidas, o time ganha fôlego para experimentar, e num cenário em que a IA gera telas em segundos, o sistema é o que segura a coerência. O novo Experience System do Itaú, apresentado nos bastidores no segundo dia, mostrou o que isso significa em escala.
Na outra ponta, uma preocupação aparecia em vários palcos: o genérico. Quando qualquer pessoa constrói qualquer coisa, o padrão vira genérico, e a tentação do pronto é sedutora porque parece eficiência. Um slide exibia uma grade de landing pages geradas por IA quase intercambiáveis, com a mesma hierarquia, a mesma serifa elegante e o mesmo gradiente escuro. Um painel inteiro foi dedicado a como não deixar uma marca artificial na era da inteligência.
As cinco lições de uma marca em movimento ajudam a responder:
- Preserve o ativo amado. Na história contada, o gato atravessou todas as fases.
- Mude antes de precisar. Rebranding como hábito, não como crise.
- Itere em versões. v5, v6, teste A/B: design como produto.
- Ouça em todo ponto. Loja, verso da caixa, DM, comentário.
- Produto é a mídia. O sabor vem primeiro, e a fundadora conta a história.
A segunda lição é a mais útil para quem atende clientes. A maioria das marcas só muda quando dói, e mudar aos poucos custa bem menos.
A atrofia intelectual: a perda lenta da capacidade de pensar fundo, de forma crítica e por conta própria. A saída apresentada foi uma conta simples. Repertório, o que você sabe e viveu, mais relações, com quem você troca, mais IA, a ferramenta que acelera, resulta em diferencial, aquilo que só você entrega. A ferramenta entra como multiplicador, e quem define o que está sendo multiplicado continua sendo a pessoa.
Uma terceira fala foi na direção oposta e surpreendeu: a criatividade flui quando o cérebro entra no piloto automático. A pausa, o tédio e o ritual voltaram a aparecer como condições para a ideia nascer, num momento em que tudo é trend e a atenção está disputada.
O Top 10 de habilidades de 2025 do Fórum Econômico Mundial, mostrado na última sessão, confirma o movimento. Pensamento analítico, resiliência, liderança, criatividade e autoconhecimento ocupam o topo. Letramento tecnológico só aparece em sexto, antes de empatia, curiosidade e aprendizado contínuo. Fora uma posição, a lista inteira fala de gente.
Por que a semana de Design Itaú é para mim, sem dúvidas um dos melhores e maiores do Brasil e América Latina?
Há eventos que mostram ferramentas e eventos que mostram tendências. A Semana do Design Itaú foi mais um encontro de profissão. Ver uma empresa desse porte colocar tipografia, editorial, carreira e marca no mesmo palco que IA e design system diz muito sobre o momento do setor: o design não está sendo engolido pela tecnologia, mas está sendo obrigado a explicar melhor o que faz e por que importa.
Para quem trabalha com design no Brasil, inclusive longe dos grandes centros, a mensagem é animadora. O diferencial não está em ter acesso à ferramenta mais nova, porque todo mundo tem. Está em saber a pergunta certa, escutar as pessoas e sustentar uma identidade própria. Isso se aprende, se pratica e, como o evento lembrou o tempo todo, se constrói conversando.
O encerramento do evento ficou com Bruno Machado, da Miro, e Michelle Schneider, autora best-seller, na sessão “O profissional do futuro”. O destaque foi o Top 10 de habilidades de 2025 do Future Jobs Report, do Fórum Econômico Mundial. Pensamento analítico abre a lista, seguido de resiliência, flexibilidade e agilidade, liderança e influência social, pensamento criativo e motivação e autoconhecimento. Letramento tecnológico só aparece em sexto, antes de empatia e escuta ativa, curiosidade e aprendizado contínuo, gestão de talentos e orientação para serviço e atendimento ao cliente.
Fora a sexta posição, as outras nove falam de gente: como pensa, como convive, como aprende. Para quem forma designers, o recado é claro. Vale manter o ensino em torno de raciocínio, escuta e criatividade, e tratar a ferramenta como meio. Depois da última sessão, houve happy hour das 18h10 às 20h, que também é conversa.
