Artes The White Stripes, De Stijl e o básico no design

The White Stripes, De Stijl e o básico no design

Por Luan Alves

CAPA: Jack e Meg White no set para criação da capa do álbum De Stijl. Fotógrafo: Ewolf.

Às vezes, podemos pensar que um projeto musical se resume apenas ao som, mas de certa forma, principalmente nos dias de hoje, a indústria do entretenimento requer mais e mais dos artistas, fazendo do conjunto audiovisual uma das principais preocupações. Muitas capas de discos nos marcam, mas e quando falamos sobre uma estética geral de algum artista ou banda? Podemos, por exemplo, lembrar dos primeiros anos do fab-four, os Beatles, quando em uma jogada de marketing de Brian Epstein passaram a utilizar os mesmos cortes de cabelo e ternos iguais. Uma imagem que os tornou mais aceitáveis ao público mundial do que a pegada despojada de anos antes iniciada com The Quarrymen. Podemos também pensar em artistas contemporâneos como Lady Gaga, Beck e outros, que a cada álbum procuram uma identidade conceitual. Mas poucos atos, até hoje, se relacionaram tão intensamente com uma identidade e com o design em si como o The White Stripes de Jack e Meg White.

A banda formada em 1997, se importava tanto com a estética quanto com a música, e a relação dos dois era muito próxima, pois as ideias que o movimento De Stijl traziam, influenciavam diretamente as composições da banda e o que eles queriam conquistar.

Na minha cabeça, ambos movimentos, o blues country e o movimento De Stijl representaram um novo início para a música e para a arte, talvez para a eternidade. Ambos destrincharam sua arte para o núcleo básico. Você não conseguiria ser mais simples e puro do que a escola De Stijl. Eles apenas utilizavam quadrados, círculos, linhas verticais, horizontais e cores primárias. E só. O blues country do Son House  e Charley Patton também trouxeram a música para seus fundamentos.

Jack White em entrevista para a Guernica Magazine (High Art, Low Blues – Guernica (guernicamag.com))

E isso é muito claro na música do duo, desde a própria formação com apenas Jack na guitarra, piano e vocais e Meg na bateria, percussão e vocais. Fugindo da clássica formação de quatro integrantes ou coisa parecida. Com a música também sempre tendo sua base apenas nos aspectos fundamentais, uma produção simples e sem muitas das opções que compõem o cenário da música atual, cenário esse que para Jack, com as ilimitadas opções, pode ser um empecilho ao processo criativo.

O estilo musical da banda foi crucial para um renascimento do garage rock e do envolvimento das bandas de rock com o blues. Duos como The Black Keys e The Kills, surgiram no mesmo período e é notável a importância e influência do White Stripes nesse movimento surgindo nos anos 2000.

O movimento De Stijl

Composition A, Piet Mondrian (1923); Composition VII (The Three Graces), Theo van Doesburg (1917) e Red and Blue Chair, Gerrit Rietveld (1918-1923)

O De Stijl (termo holandês que significa O Estilo) também conhecido como Neoplasticismo foi um movimento fundado na Holanda em 1917. Consistia em artistas e arquitetos. Os proponentes do De Stijl defendiam a abstração pura e a universalidade por meio de uma redução ao essencial da forma e da cor; eles simplificaram as composições visuais para verticais e horizontais, usando apenas preto, branco e cores primárias. De Stijl é também o nome do jornal publicado pelo pintor, designer, escritor e crítico holandês Theo van Doesburg (fundador do movimento), que serviu para divulgar as teorias do grupo. Na criação do movimento, em 1917, Doesburg se uniu com diversos artistas e também um dos mais importantes pintores do século XX, Piet Mondrian que ao iniciar o movimento acabou decidindo limitar seu vocabulário formal e pinturas às três cores primárias (vermelho, azul e amarelo), aos três valores primários (preto, branco e cinza) e às duas direções primárias (horizontal e vertical). Após a morte de Doesburg em 1931, o grupo de artistas que formava o movimento não sobreviveu sem sua figura central.

As cores do The White Stripes

As cores desde o início foram essenciais para a banda. E já no início da carreira, procurando um contrato com uma gravadora, conseguiram uma proposta com a Bobsled Records, em Chicago, mas mesmo sendo uma boa oferta, a banda recusou. A razão disso é que a gravadora demandava que o logo deles fosse colocado no encarte do disco. O logo da gravadora era verde. Imediatamente negaram, as cores eram um deal-braker. A inserção do logotipo quebraria a identidade composta de vermelho, branco e preto, todo o conceito não só do encarte mas da identidade de cores da banda, que tinha na utilização dessa tríade, algo sagrado nas próprias palavras de Jack White.

Fotos de materiais promocionais da banda para divulgação. Fotógrafos: Tabatha Fireman/Redferns; Autumn de Wilde; John Griffiths e EWolf.

Esse trio de cores é forte e ajudou a moldar nosso imaginário da banda. As cores dos White Stripes sempre foram vermelho, branco e preto. São a combinação de cores mais poderosa de todos os tempos, de uma lata de Coca-Cola a um banner nazista. Essas cores se relacionam com as pessoas. No Japão, são cores honrosas. Quando você vê uma noiva em um vestido branco, imediatamente vê inocência nisso. Vermelho é raiva e paixão. Também é sexual. E preto é a ausência de tudo isso.

Jack White em entrevista a David Fricke para a Rolling Stone (The Mysterious Case of the White Stripes – Rolling Stone)
Capas dos álbuns da banda capturadas no serviço de streaming Spotify.

Em todos os seis álbuns de estúdio da banda, nunca uma cor diferente foi utilizada. Nem mesmo em performances ao vivo a banda abandonava a estética.  As roupas nunca fugiram da paleta escolhida, foram anos de comprometimento dos dois músicos em manterem o padrão visual, para ser mais exato 14 anos, que por coincidência (ou não), foi o mesmo tempo que durou o movimento De Stijl (1917-1931). Movimento que também dá nome ao segundo álbum da banda, lançado em 20 de junho 2000.

Como um uniforme na escola, você pode apenas se concentrar no que está fazendo porque todos estão usando a mesma coisa.

Meg White (The sweetheart deal | Music | The Guardian)

A ideia principal da banda é de um retorno ao básico, aos fundamentos e ao essencial da música, uma proposta que de certa forma também é utilizada pelo punk rock, blues rock e o rock n’ roll em geral. E com a bateria simples mas essencial de Meg White e a guitarra imponente e áspera de Jack eles rapidamente mostraram para o que vieram com um som cru, básico e incrivelmente contagiante. 

E a atenção a estética e detalhes não se limitava apenas as cores, mas aos números e mais especificamente, um número, o três: Vocais, bateria e guitarra; Relógios na parede sempre com o ponteiro marcando as três horas nos shows; Três cores; Jack White III é o nome que o guitarrista costuma usar; The White Stripes é composto por três palavras; Third Man Records é o nome da gravadora de Jack. O fascínio pelo número três, é consistente e se baseia no conceito principal da banda e do movimento artístico, de utilizar apenas o essencial.

Fotos demonstrando aparições do número 3 nos materiais da banda, encontradas em: Jack White’s Obsession With The Number 3, Three & III | FeelNumb.com

Tipo, você só precisa ter três pernas em uma mesa. Você não precisa ir além disso: os três componentes da composição, os três acordes do rock’n’roll ou do blues – esse sempre pareceu ser o número. Três pode ser traduzido de muitas maneiras. Existe a trindade no cristianismo e objetos no mundo como, por exemplo, um semáforo, ou a roda de um carro, que pode ter apenas três porcas para segurá-la. Existe uma definição sobre isso.  A maior ocorrência é em ‘The Big 3 Killed My Baby’, são três acordes e três versos, e acentuamos três junto ao longo da música toda. Foi um número que sempre considerei perfeito, ou nossa tentativa de ser perfeito. Como no semáforo, você não poderia apenas ter um vermelho e um verde. Trabalho com esculturas também e sempre uso três cores. Eu não sei. Tem essa sensação, tudo o que fazemos. Parece a conexão perfeita. Há o vocal, bateria e guitarra.

Jack White (White Stripes Stick To Primary Colors, Ideas And Sounds | News | MTV)

É muito claro como a banda conseguiu com maestria unir as ideias que tinham e desenvolvê-las ainda mais mesclando e estudando o movimento artístico De Stijl com suas composições e estética. Inclusive, homenageando o movimento no segundo álbum deles, “De Stijl”, de 2000.

No mundo criativo necessitamos enxergar em outros caminhos soluções novas para os problemas, não é porque você faz música, arte ou design que não pode buscar referências no cinema, na literatura ou outros meios, cabe a você encaixar e desenvolver o que funciona para o seu processo criativo, as suas sinapses dependem apenas de como você alimenta sua mente criativa e cria sua bagagem.

Jack White continua em carreira solo após o fim do duo e também participa de duas outras bandas, o The Raconteurs e o The Dead Weather. Enquanto Meg White deixou de lado a vida pública até então.

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